Carta a um amigo severo

você joga com o fácil, celebra o clássico, ironiza a transgressão, tomando-a por maus modos. faz vista grossa ao que você e “algum iconoclasta juvenil” possam ter em comum: operam pelo reiterado, transformam a querela em questão de valor. é isto sua busca por timbres confiáveis, vozes familiares. elas lhe dirão o que deseja ouvir, de minha parte importa mais que não saibam no que dará seu dizer. questão de gosto, desvio do assunto, volto ao assunto. em todo caso você é desonesto, e até covarde: ao clássico você opõe imitadores de B, filhos de C, leitores de A. nada opõe, portanto, pois a criadores dalgum tipo só seria possível contrastar outros criadores, não frequentadores de paróquia, escritores cover. sua confiança nO cânone e na boa escrita, eu a reconheço de longe. âncora do conservadorismo de meus amigos, leitura que usurpa e varre p/ debaixo do tapete a potência das cisões. a você eu desejo mais que isto, punhalada no peito ou inflamação nos ouvidos, para que você saiba o que pode um grito contra o sussuro na “noite da sua alma”. também eu compartilho o mal estar diante do ególatra, e gosto da imagem que você cria, hoste de molloys & malones, pra falar de fragilidade. mas o que lhe faz correr de volta para a barra da saia dos clássicos em mim desencadeia a desconfiança de que as espirais dos solilóquios não dizem só do autismo de seus autores, dizem da pobreza de uma arte reduzida à dimensão expressiva. para mim algo de base, recusar o avental da autoexpressão e franquear os limites da expressividade, curioso pelo que se pode experimentar com as mutações do que se pode dizer. investigar o que pode a arte verbal, para você e meus amigos conservadores implica saber o quão alto ela vai, mas para mim, o quão longe ainda pode ir. indagar o que pode a linguagem segue sendo para mim motor da pesquisa estética, e quero crer que então já estaremos distantes de uma questão de valor ou gosto, embora seja sim questão de temperamento. pesquisa e projeto não interessam ao seu lance de clássicos, e acho curioso que noutra ocasião você cite john cage, cuja lição (i make music not to express, but to change myself) não é outra senão curtocircuitos e viagens ao desconhecido. persegui, ainda persigo o contrário de uma boa escrita, que para mim é uma função de advogados, importando à arte verbal que lide com o que escapa, o que está fora. sem complexos, de édipo ou épico, apenas este abandonar-se, abjurar constante. o que abraham moles chama pensamento bruto, e lawrence ferlinghetti (ideas before they are destilled into thought) chama poesia. no fundo você o sabe, e o demonstra ao esbanjar ironia contra subtransgressores, pois imitadores de qualquer estirpe jogam no que já se sabe. ou estou errado e você se opõe a que se imite uma faixa criativa que não lhe interessa, acreditando desejável que se imitem clássicos, que afinal foram feitos para isso. talvez por isso você resmungue, bem a contragosto, que roberto bolaño seja a exceção que de fato é. não lhe passa pela cabeça que todo criador que importa é uma exceção por princípio e posse, dimensão de excesso contra a regra-redundância. você se senta na poltrona do estável e recebe o espólio de uma tradição, e deve ser boa a paz que sente na companhia dos mortos enquanto aprende com eles a viver, e você dorme e dorme sem sonhar outra existência.

Anúncios

5 thoughts on “Carta a um amigo severo

respostas

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s