Variação c/ tema ao fundo

e estranho a lembrança que me assalta a cada vez que penso em j. cage, sua risada e o tom de sua voz me tomam e antecipam a ideia, imagem pessoal intransferível mas eu a dedico logo a ele em quem encontro um professor do abandonar-se? em volta a cidade em obras, orquestra de ferro e asfalto e vidro ponteando timbres que desconheço até que os ouça e me abandone a ouvi-los, e me incorpore à liberdade de que são feitos. entrega antecede o entendimento, sabor se adianta ao sentido. criar liberto do imperativo da autoexpressão, abertura dos canais perceptivos à integralidade, imprevisibilidade e extraordinária riqueza de toda experiência sensível. criar para alterar-se, e improviso definir que o criador não passa assim de alguém liberto de si mesmo. linguagem liberta de mensagem, também os signos se abandonam a si próprios, organismos vivos, inteligência do acaso. o acaso é a inteligência anônima, o acaso é a intuição anônima. e não estranho a lembrança que me assalta a cada vez que penso, pois em j. cage, sair absoluto de si não é abolir-se, mas rebelar-se sem descanso. desencadear na linguagem o desconhecido é seu modo de lidar com o risco, livrar-se dos próprios critérios, nada sujeitar ao crivo do ego. selflessness not self-expression. purposeful purposelessness. atenção ao que não lhe pertence, mas não para pertencê-lo. i-ching, modo de usar: a discipline to free my work from my memory and from my likes and dislikes. tudo lhe interessa, nada lhe entedia, daí que tenha as manhas de sair de si sem sentir a menor falta e que, indagado sobre o que aprendera com as execuções de 4’33”, tenha dito que a questão nunca fora aprender, mas transformar-se. anarquista coerente, não lhe importa o acúmulo mesmo de saber, que pretere em favor da mutação ininterrupta de si em algo ainda não vivido. sons que seguem ocorrendo quer você os produza ou não, quer você insista em negar que haja risco ou não. o que cage concebe por silêncio, não a ausência de sons mas de intenções (what is the purpose of that/ experimental music?/ no purposes — sounds), experimente: ouvi-lo é dispor-se à vaziez. amo seu gosto pelo ruído e pela ausência de lei do ruído. há quem ache pouco, aquém da arte, mas não é justo nesse território instável, onde esquecermo-nos é esquecer a arte, que nós nos confundiremos com ela? why do they call me a composer/ if all i do is ask questions? o que j. cage alcança por meio de sua criação qualquer um poderia alcançar. isto não significa que qualquer um poderia criar aquilo que criou, mas que ninguém precisa dele para criar. seriously/ if this is what music is/ i could write it/ as well as you. à semelhança de seu riso fácil não há traço em cage da empáfia que este mesmo alvo de realizar em vida a arte imprimiu em tantos gestos que igualmente amo, destemperados solares explosivos, que contudo miram a libertação (dos homens, da sociedade, das consciências) de alguém ou algo além daquele que os empunha. a mim ele parece rir como se pela 1ª vez, sempre, somente em j. cortázar encontro tal determinação infantil e alegria desmedida, afirmação da vida como via para transformá-la, total entrega ao começo das coisas, inclusive ao começo de si, esse estar no mundo a cada vez inaugurado. daí sua opção pela performance, que ao contrário dos discos considera necessariamente diversa a cada vez. e pondero e discordo, e penso que também um disco é outro a cada vez pois já é outro quem o escuta, e pondero e entendo que também aí onde discordo esteja a abertura integral de cage ao que desconhece. pois se cada leitura se inaugura é por se ter modificado o leitor, enquanto o imprevisto na performance não está na mutação que já se deu em quem performa mas em todo o resto e em tudo onde haja fôlego.

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