Visão

Na única vez em que subi ao palco por causa da poesia, não foi para falar poemas. Era o lançamento de Belle Epoque, livro do poeta Celso Borges, amigo nada menos que fundamental, de que tive o privilégio de escrever o prefácio. Eu estaria de passagem por São Luis e decidimos seguir a indicação do acaso, armar um show que celebrasse o livro e alguns encontros que aconteciam à época. Do que consigo lembrar, gravitamos por um mês entre ensaios e a composição das trilhas, num estado absoluto de torpor e entusiasmo, Celso, Bruno, Lucap, André Grolli e eu. Um encontro que não voltaria a acontecer, e que esbarrou em algumas fissuras, mas por razões bem mais felizes se tornou uma noite memorável, sei que não só p/ mim. Na sala do Cine Praia Grande, nomeados de forma deliciosamente adolescente como Celso Borges & Os Restos Inúteis (para horror e alguma náusea dos mais sensíveis), soltamos alguns impropérios, suamos alguns outros e nos divertimos muito, ou ao menos eu me diverti. Trago isto a público e à lembrança porque ontem à noite, enquanto participava da passagem do velho CB por São Paulo, ao som de Lee Perry na minha sala, no clima do aniversário da morte de Bob Marley, a caixa de entrada do poeta acusou a chegada de um email de Lucap, jogando na roda o vídeo que abre este post. Sobreposto às imagens, o áudio de um de meus poemas preferidos do livro, “Visão”, evocação alucinada de Bandeira Tribuzi, nosso modernista de óculos profundos e cara de tartaruga. A câmera de Lucap registra um encontro com Celso e Bruno de que apenas ouvi falar, em caminhada pelo centro da cidade. Bastante feliz por me deparar inesperadamente c/ um som que não ouvia desde aquela noite, há um ano e meio, um tanto frustrado c/ as passagens em que a ambiência abafa exageradamente os versos e o barulho da banda, celebro o que pode haver de simbólico na coincidência de ter acesso a esta viagem afetiva poucos dias após ter voltado de outra viagem da mesma estirpe, o brevíssimo fim de semana que passei em São Luis, do qual retornei c/ a guitarra que deixara na ilha, exatamente um ano e meio atrás, porque uma crise de tendinite me impedira de carregá-la.

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3 thoughts on “Visão

  1. André

    pois é, o som abafou mesmo a certa altura. fiz o corte do vídeo que rolou junto com nossa apresentação. o áudio da câmera acabou ficando.

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