José Agrippino de Paula, malabarista solitário dos limites

Num diálogo que encampa em A mulher de todos, de Rogério Sganzerla, José Agrippino de Paula é questionado por Ângela Carne e Osso, a personagem de Helena Ignez, “qual a sua verdadeira identidade?”. Ao que metralha alegremente de volta – “Zulu Anárquico!”. No filme, é um traficante de armas como Rimbaud, dá um giro pela África, some sem vestígio ou rastro, qual Rimbaud. Vida anárquica, provocações e alucinógenos.

“Ele tá fora de qualquer enquadramento”, diz o diretor Luiz Fernando Resende, a certa altura do filme Passeios no Recanto Silvestre. Embora se refira propriamente à relação de José Agrippino de Paula com o audiovisual, a frase ricocheteia de imediato noutras direções. Repercute no contexto do desenquadramento mais amplo produzido pela contracultura brasileira, essa fatia festiva da subversão ou de seu sonho, na qual sua obra foi fermentada e para a qual contribuiu com seus temperos. Também o conjunto da sua produção está “fora de qualquer enquadramento”, restando, talvez, desenquadrar a sua leitura, para dizer algo acerca de sua relação com a linguagem, com as linguagens, todas elas.

De modo determinante, existe a relação dispersiva que Agrippino estabelece com as artes, o caráter terminantemente multimidiático, pulverizado, de sua criação. “Carrego fragmentos”, diz a certa altura o narrador de Lugar público, e a questão parece esta – é impreciso chamá-lo Escritor Sem Nome. Se é verdade que sua obra literária mínima é demolidora o suficiente para que PanAmérica seja sozinho referência crucial à sua e às gerações seguintes, não dá para esquecer que o autor condensa um imperativo caro à contracultura – experimentar.

Desregramento integral, desbunde na criação e na existência, pois àquela altura ninguém duvidaria serem a mesma coisa. “Escute meu chapa, um poeta não se faz com versos”; “pra ser poeta é preciso ser mais que poeta”; preciso é colocar-se “na esfera da produção de si-mesmo”. Agrippino, recorda-se Jorge Mautner, enxergava os escritores brasileiros como uns funcionários sedentários, que não percebiam o quanto eram importantes para a escrita atividades como lavar pratos, ou cortar árvores.

Um irredutível, profundo vitalismo, que se espraia noutras direções. Certamente na direção de testar espaços periféricos à literatura, esta senhora. Torquato Neto e sua fissura pelo Super-8; Paulo Leminski interessado em vídeo, música popular, publicidade, histórias em quadrinhos; Waly Salomão em trânsito sobretudo com Hélio Oiticica, Lygia Clark, Jards Macalé; Jorge Mautner com sua literatura bombástica, sua música e os roteiros de cinema – não raro, os espíritos inquietos do período se aproximam das linguagens mais velozes, aquelas que causam micoses na pele totalitária do país e facilitam que, à revelia, a informação circule.

Deglutir informação faria parte da dieta contracultural brasileira, onívora e fragmentária em suas referências e realizações. Excesso e rapidez de informação em contraponto à capacidade repressiva da censura, que sem traço de dúvida calou muitas vozes, mas sob sua capa ainda assim articulou-se “uma rede informacional alternativa, com as páginas de [Luiz Carlos] Maciel no Pasquim e publicações como Flor do Mal, Presença, Bondinho e Verbo Encantado. Seja como tenha sido, as informações chegavam – e o caldeirão fervia”.

Configura-se aí uma experiência coletiva, brilho nos olhos ante o jardim elétrico da cultura. O acesso a mídias de difusão mais ampla que o livro abrindo possibilidades expressivas de incandescência especialmente significativa num período de opacidade coletiva. Não causa espanto que a banda mais elétrica da literatura brasileira começasse a achar pouco pôr palavra no papel (embora não seja), pouco audível, lento demais.

Esta é a cena em que se dá a obra de José Agrippino de Paula, isolada da ficção brasileira a não ser por outros criadores anômalos, fazendo travessia por linguagens mil, militando por deslocamentos de ideias e comportamentos, meios expressivos, possibilidades expressivas.

Quanto a isso vem ao caso uma formulação de Lotman, segundo a qual “as rodas da cultura giram em diferentes velocidades”. A variedade das linguagens em circulação possui igual variedade de funcionamentos, elas nem sempre se revolucionam simultaneamente, seus elementos relacionam-se complexamente com a História. Enquanto algumas pegam fogo outras têm repouso, ou entram em combustão apenas se em contato com o rescaldo de outros incêndios. É assim que a José Agrippino de Paula a literatura parecia não ter mais para onde ir – ele atropela o campo literário, e leva a roda lenta do romance ao limite doutras artes.

Disto, o primeiro indício é a insistência do escritor em afirmar que as raízes de sua ficção não ficam nem no Brasil nem no universo das letras. “‘Sou um filiado da pop art’, repete à exaustão. ‘Em 1964 a promoção da pop art era bem intensa nas revistas estrangeiras que eu consultava’”, ele bate o pé, privilegiando um chave de leitura negada a Lugar público, costumeiramente vinculado pela crítica ao nouveau roman francês ou à literatura beat norte-americana. A referência ao pop se afina com a caracterização feita por Caetano Veloso, em Verdade tropical, do escritor como um sujeito que dizia preferir os filmes de 007 ao Jules et Jim de François Truffaut. Sem descartar que seja uma provocação, a opção pelo cinema norte-americano é um traço tanto do fascínio de Agrippino por sua mitologia quanto do anti-intelectualismo – seletivo, sem dúvida – caro à contracultura. Considerando mais o que sua obra faz do que o que diz o autor, não é bem uma “filiação” que está em causa, mas a entrada da pop art no ambiente de devoras múltiplas do desbunde brasileiro. Nesta apropriação, José Agrippino de Paula está sozinho como romancista – profundamente marcado pelo repertório de seu tempo mas isolado de uma tradição romanesca.

A escrita não passa de uma das linhas de força de sua obra desagregadora. Segue-se um livro após o livro de estreia, mas depois disso o autor parte para outras, realiza filmes, dirige peças, shows.

Mas espere aí, será que esta sequência existe mesmo? Lugar público termina exatamente numa tela de cinema, talvez seu personagem assista àquilo que se filma em PanAmérica, este não-romance ou epopeia em cujo início o narrador se embrenha na superprodução hollywoodiana A Bíblia. O livro é cheio de fissuras, sintaxe de cortes secos, cenas soltas como células, em sintonia com alguns filmes brasileiros do mesmo período, inclusive os do próprio autor.

Quando perguntado, em certa ocasião, sobre as condições em que teria escrito cada um de seus livros, José Agrippino de Paula respondeu “eu escrevi os dois ao mesmo tempo”. Não deve ser verdade, mas isso diz muito de seus modos de mistura, em que linguagens se emprestam frequentemente a outros usos.

Celso Favarettolembra a noção de “texto de desgaste”, apresentada por Agrippino num roteiro para a montagem da peça Rito do amor selvagem. Obra calcada em discursos políticos e notícias de jornal, com várias faixas de áudio mixadas, contendo diálogos, ruídos, música, diversas mídias no palco, “estereótipos, restos e cacos da cultura de consumo, significantes-objetos industriais prontos para a circulação”.

Figura irredutível a especialidades, sua obra transborda das realizações para o percurso errático de sua vivência africamericana, sua saída de cena, seu mito involuntário. Tudo isso confere potência à dispersão e seu efeito desagregador. Dispersão que é uma abertura que nos oferece, também, um jogo libertário ao qual convida. Se Valêncio Xavier (para retomá-lo em paralelo) é um criador de amálgama e fusão, Agrippino de Paula opera pelo centrífugo.

Uma leitura excessivamente centrada nos livros e esquecida das mil linguagens em que se meteu deixa escapar coisas demais. Sair, assim, do vértice de PanAmérica, exercitar uma leitura que passe por outros vértices, inclusive para confrontar o que se sabe sobre esse livro. Flagrar o autor nas questões que atravessam a obra, ao invés de em cada uma das obras, talvez seja um caminho mais vigoroso que o fracionamento, pois não se fraciona o excesso a não ser para secá-lo.

[mais um trecho de Joca Reiners Terron ou a imaginação crítica, dissertação que apresento logo mais, hoje mesmo, na Escola de Comunicações e Artes da USP]

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4 thoughts on “José Agrippino de Paula, malabarista solitário dos limites

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