Leminski, leveza, ligeireza

Aqueles que apreciam, como aprecio, a obra & figura do poeta Paulo Leminski, costumam atribuir-lhe a velocidade como um traço forte, a rapidez de pensamento, destreza de insights etc. Ainda é necessário, me parece, defrontar-se c/ a ligeireza que não raro lhe acompanha a ideia rápida, a fragilidade de parte expressiva de suas proposições, sobretudo porque muitas vezes distraída na postura incisiva, afirmativa, de sua eloquência graciosa.

Passei a me deter no assunto por conta dum tema em comum, paixão que compartilhamos, as vicissitudes da obra de arte enquanto mercadoria. Leminski dedicou alguns ensaios à questão, que discuto (o tema & os ensaios) em texto a ser publicado ainda este semestre. C/ o relançamento de seus trabalhos críticos num único volume (LEMINSKI, Paulo. Ensaios e Anseios Crípticos. Campinas: Unicamp, 2011), folheando-o outro dia, quis voltar a isto, motivado pela profusão de imprecisões disseminadas por suas páginas, desde citações erradas até falseamentos históricos (pensando o tema da mercadoria em “Estado, Mercado. Quem manda na arte?”, o poeta situa a entrada da arte no mercado no período posterior à 2ª Guerra Mundial, numa tentativa forçada de livrar a cara das vanguardas, ignorando, no mínimo, que até a década de 1930 o tema já havia sido fartamente pensado por W. Benjamin), alhos misturados a bugalhos (a equivalência, p. ex., entre poesia experimental & poesia metalinguística, no ensaio “Arte-reflexo”) & formulações interpretativas que pesam a mão, indiciando dois aspectos dos mais problemáticos de seu pensamento, a prevalência da tese sobre os eventos & o recurso determinista à História.

Há uma tirada fabulosa numa de suas entrevistas, em que ele afirma gostar sempre de se colocar numa perspectiva histórica, característica que parece ter motivado não apenas diversos de seus temas, como também a disposição ininterrupta de vasculhar problemas pertinentes ao seu próprio tempo, algo que admiro intransitivamente. No corpo a corpo c/ os raciocínios, porém, “perspectiva histórica” resulta numa série de relações de causa & efeito bastante grosseiras, algo em que Leminski se assemelha aos marxistas de cartilha que não perdia a chance de ironizar.

Neste sentido, o ensaio “Alegria da Senzala, Tristeza das Missões” é uma aula sobre o modo como forja argumentos desdobrosos p/ corroborar teses que lhe ajudem a ordenar o mundo, ainda que à revelia deste. Escrito sob o impacto de uma visita a Salvador, o texto empreende uma leitura do Brasil fracionando-o em Norte (“do Rio de Janeiro p/ cima”) & Sul, dois currais cuja diferença marcante seria a festividade & alegria do primeiro contra a frieza & moral trabalhista do segundo. A oposição seria compreensível à luz de nosso período colonial — o “Norte”, receptor do negro escravizado, deveria sua festividade ao fato de que “o africano conseguiu preservar suas formas culturais, em corpo e alma, da lavagem cerebral exercida por missionários e pregadores. Nisso, o negro deu um banho de plasticidade, demonstrando uma esperteza que os índios nunca tiveram ou não conseguiram ter”. Os africanos “eram, muitas vezes, superiores em cultura aos Joaquins e Manuéis analfabetos que os adquiriam”, daí terem conseguido preservar ritos, mitos, danças & hábitos que os haveriam de manter, e às suas almas, intactos — ao contrário dos índios, dizimados culturalmente pelo colonizador. Tanto que “duas coisas chamavam a atenção dos raros visitantes às Missões jesuítas do Sul do país e do continente: a ordem e a tristeza. (…) Atingidos mortalmente no coração da sua cultura, os índios reduzidos do Sul vegetavam, c/ um grande vazio dentro e uma alma postiça”.

No correr da História, ainda chegariam à região os imigrantes, que, c/ os índios, forneceriam a explicação completa da “tristeza” que acometeria a banda de baixo do país. Italianos, alemães, poloneses, sírio-libaneses, japoneses, ucranianos, holandeses — “repetiu-se, com os imigrantes, o fenômeno da erosão cultural do índio”, pois o imigrante “em duas gerações perde a língua de origem, tradições e formas culturais próprias. Mas ainda não adquiriu plenamente as formas brasileiras de cultura”. P/ isso, o exemplo dado por Leminski é constrangedor — “apesar de um gaúcho, Lupicínio Rodrigues, não há samba no Sul. E nosso carnaval é um velório, cotejado c/ outros carnavais mais ao norte”. Uma tolice em si própria a ideia de que ao habitar entre culturas o imigrante torna-se um aculturado, ao invés de jogar & forjar uma cultura entre culturas, em movimento como tudo o mais na vida — tolice coroada pela redução do espectro cultural brasileiro a manifestações (samba, carnaval) que sequer são homogeneamente fortes naquilo que o poeta considera “Norte” do país (no Maranhão, fevereiro só em junho). Mas o cúmulo está em que, p/ confirmar a tese desse Norte alegre contra o Sul cinzento, o poeta afirme: “o negro também morria de ‘banzo’, modalidade mórbida de saudade da África, misturada c/ desgosto pela condição escrava, c/ que se perdia o prazer de tudo e deixava-se morrer à míngua. MAS ERAM CASOS” (grifo meu). A própria palavra banzo, embora de origem incerta, existe como designação do blues do exílio transatlântico, mas “eram casos”? O poeta, p/ falar da real plasticidade cultural africana (pois é real a plasticidade cultural do humano), ignora o que a produção historiográfica das décadas de 1960/70 já havia contestado como “mito da escravidão branda”, apontando não apenas a dimensão brutal do cativeiro, como também os altos índices de suicídio entre os escravos (lembrando, c/ Antonio Risério, que “os iorubás vieram parar aqui por conta de suas guerras c/ o Daomé. E que muitos africanos atuaram no tráfico de escravos”).

Observe-se ainda que, descontada a estranha lógica que considera a superioridade cultural do negro em relação ao “branco analfabeto” (como se cultura fosse um pingente p/ letrados, ou como se fizesse algum sentido opor o “analfabetismo branco” à riqueza cultural africana, fortemente assentada na oralidade), Leminski é capaz de, em defesa de seu argumento, ignorar inteira a região Norte (Norte mesmo) do país, em que a presença indígena jamais se dissipou & em que não houve, até onde alcanço, assentamento de populações africanas (também ignora, voltando a Risério, “a cruel política expansionista dos tupis, que expulsaram tribos indígenas do litoral p/ o interior, matando deus-e-o-mundo. [E que] os tupinambás eram escravistas”). Mesmo no Nordeste (que o poeta imagina ser uma grande Bahia, cooperando p/ um dos mais comuns estereótipos que se promovem “do Rio de Janeiro p/ baixo”) a presença do negro não é homogênea, fazendo-se incipiente em estados como a Paraíba & convivendo, no “Nordeste profundo”, com substratos culturais mais diversos que o samba & os cultos afro-brasileiros — convivem inclusive doses violentas de racismo & machismo c/ a liberdade física & sexual idealizada pelo poeta. E se menciono a Paraíba, é porque vem de lá uma das mais óbvias contradições à imagem alegre em que Leminski investe (ou inventa), o poeta Augusto dos Anjos, “e quando esse homem se transforma em verme/ é essa mágoa que o acompanha ainda!”…como a própria existência de Leminski põe abaixo a ideia deste Sul cinzento.

Tudo talvez decorra de sua ânsia de sentido (“me recuso a viver num mundo sem sentido”, diz à entrada do livro, aliás num belo texto), que na sanha das explicações atropela aquilo que lhe contradiz, intérprete guloso, apaixonado pelas próprias sacadas, mesmo as mais descuidadas.

[Em tempo: as citações de Antonio Risério foram colhidas na entrevista “A transa cultural da periferia baiana”, presente no volume da série Encontros (Azougue, 2009) dedicado ao poeta & antropólogo.]

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7 thoughts on “Leminski, leveza, ligeireza

  1. www.salamalandro.redezero.org

    Reuben, meu caro!
    Grandes sacadas as suas, balizas rápidas e ligeiras. Claro que Leminski não deixa de ser rápido e rasteiro, claro que ele não perde o valor só por ter suas “verdades” colocadas em xeque, coisa que 90% dos pensadores e acadêmicos do Brasil também merece.
    Abraço,

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    1. reuben da cunha rocha Post author

      Leo: não acho que o valor de um pensamento se calcule pela média entre erros e acertos, mas que é percebido pela qualidade da visão. E visão, nós sabemos, Leminski tem de sobra. No mais, acredito que o relançamento da sua obra é uma boa oportunidade p/ avançarmos do estado de fascinação, em que reside a maioria dos “fãs” (o fã, essa entidade passiva!) do poeta, em direção ao diálogo. Forte abraço!
      (em tempo: esse livro é um barato!)

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  2. Eduardo Júlio

    Valeu Reuben,

    Ótimas observações. Você vai muito além das abordagens superficiais. Em tempo, existe uma entrevista, que se tornou mítica nos anos 80, em que Leminski teria criticado uma afirmação ou posição de Gullar, argumentando que o maranhense é oriundo de uma das regiões mais atrasadas do Brasil. Sim, Leminski tinha razão, mas a origem de Gullar não encerra a trajetória dele. Gullar é do Maranhão, mas é do mundo. Leminski, então, não conseguia enxergar direito o que estava além de Curitiba e de São Paulo.

    Na época da UFMA, no comecinho dos anos 90, nós resgatamos de forma bem-humorada esta entrevista para um programa piloto na rádio Universidade, no qual “entrevistamos” o poeta curitibano.

    No mais, li quase tudo que Leminski escreveu, principalmente a poesia dele. Mas não li estes ensaios nem pretendo. Prefiro contemplá-lo de forma permanente como poeta.

    Um grande abraço,

    Edu

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    1. reuben da cunha rocha Post author

      Edu: no livro há vários achados, sobretudo quando ele escreve sobre figuras como Mishima, Alfred Jarry, Bashô, Petrônio. E acredito que os problemas de seu pensamento nos ajudam a pensar melhor. Brigo é pela liberdade de contradizê-lo, talvez das liberdades a que menos cultivamos. Abração!

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  3. Edson Andrade

    Cara, lindo texto. Interessante notar que Leminski é um ícone, uma figura tão gigantesca, que para os que o lêem e admiram se torna até difícil constatar como pode ser boba uma dicotomia como essa que ele promove. É preciso umas palavras como as tuas para as coisas ficarem mais claras. O legal também é que, em virtude da minha profissão, eu tenho tido bastante contato com quilombolas, índios e camponeses de raízes étnicas profundas no solo brasileiro, e – em uma realidade muito distante dos ares românticos que Leminski atribui ao “Norte” do país – é notório que essas pessoas estão inseridas em uma realidade material tão “cinzenta” quanto a de qualquer “branco anafalbeto” dos centros urbanos. E com isso seus valores culturais já vêm sendo há muito afetados e modelados, como tu observaste no texto. Por mais simplicidade que possa exalar a paisagem social do interior do Maranhão, por exemplo, em um passeio é muito mais fácil ouvir a música comercial das rádios locais do que tambores de crioula e outras ditas manifestações culturais. Isso é exceção e a representatividade que costumam atribuir a estas expressões culturais de raízes costuma ser apenas uma distração patrocinada e inconscientemente propagada.

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    1. reuben da cunha rocha Post author

      Meu velho, bom ter notícias tuas (fora o email, p/ o qual estou devendo resposta!). Conheço muito pouco o interior do MA, que visitei esporadicamente na adolescência, e do qual guardo um certo clima de faroeste. Mas penso ser exemplar quanto ao “gradiente de cores” da banda de cima do país, no mínimo por sua condição de “Meio-Norte”, essa ambiguidade geográfica que, embora seja visível (ao menos p/ mim), compreendo pouco, e apenas intuo que incide mais ou menos sobre todos nós. Abrç~!

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      1. Edson Andrade

        Cara, pode ter certeza que há uma notável diversidade quanto às origens dos habitantes daqui, mas, principalmente no interior do estado, as condições materiais formam um todo homogêneo. Sempre a mesma história, mesmos costumes, mesmos problemas e mazelas.
        Quanto ao email, tá tudo ok, eu demorei uma década pra responder o teu, hahaha.
        Abraço, cara.

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