Qual é o parangolé? e outros escritos

Variedade de elementos e, principalmente, ambiguidade de tratamento. Escrever tateando como se experimentasse saber das coisas que não se sabia ainda que se sabia. Os materiais heteróclitos, multiformes, almejando um sentido esperto de forma. A passagem do caos ao cosmo e a rara capacidade de se esvaziar de novo e retraçar o caminho inverso, do cosmo ao caos. De modo que é o processo criativo total que é ativado impedindo o fetichismo coagulador da obra feita.

O engajamento político do Hélio era anarquista, não-partidário, era um envolvimento pessoal de escolhas, uma aversão por palavras de ordem, desconfiança com organizações de esquerda e partidos comunistas. (…) Assim Hélio Oiticica compreendia a tarefa do artista: assumir a função totalizante de experimentador.

“Nós temos fé no veneno. Sabemos entregar nossa vida completamente todos os dias” (Rimbaud). Áspera pele da antiarte. (…) Liambas ou diambas em profusão de flautas e charos. (…) Hélio: sismógrafo da raça. Em crispada interface com as cobras venenosas. (…)

O exercício experimental da liberdade do surreal-trotskista e crítico de arte Mário Pedrosa é a base para a perambulação vagabunda que resulta no programa similar de experimentar o experimental. Hélio O. tinha aprendido bem que a ação política revolucionária, como o trabalho do artista, é uma intencionalidade que gera suas próprias ferramentas e meios de expressão. Claro que isto sempre esteve acompanhado de muito fumo e mais tarde de muito pó. É mesmo que ver o Hélio vivo exclamando: — E daí? E daí? And so what? And so what?. (…) Crime premeditado contra os voyeurs das artes.

HO soube metamorfosear o mundo dado em sistema significante e chumbar a ordem da vivência com a ordem da expressão. (…) Só quem tem patrão, quem não anda na sua própria vida e no seu próprio desejo inteiramente é que tem que tudo temer colocar à prova, senão qualquer ação que você encete na sua vida ela independe de sucesso ou de fracasso, você transforma a sua vida num laboratório de experimentações.

Como, num país subdesenvolvido, explicar o aparecimento de uma vanguarda e justificá-la, não como uma alienação sintomática, mas como um fator decisivo no seu progresso coletivo?

Hélio-demiurgo não quedou chapado na curtição hedonista nem na impressão servil do vivenciado. Territorializador de vastos domínios, ele soube bater o cinzel no joelho do Moisés terceiromundista e fazer aflorar a fala da favela. O nódulo decisivo nunca deixou de ser o ânimo de plasmar uma linguagem-convite para uma viagem. (…) A fecundidade HO deriva da tensão pendular transgressão/construtivismo. (…) Saboreava o gosto das metamorfoses.

[Waly Salomão, cuja obra me habita desde que a descobri, tem se reafirmado em releituras recentes figura mais do que querida, seminal p/ o projeto de vidaobraviva que me importa experimentar. Seguem, então, trechos deste fabuloso ensaio (c/ pouquíssimos pares em paixão, estilo & coragem), Hélio Oiticica: qual é o parangolé?, p/ celebrar ferozmente a disposição de lançar-se ao que ainda não se é, exercício programático de possíveis contra a ideia apenas tola de que escrevemos p/ dar algum tipo de satisfação ou, pior, de respeito]

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