A alegria

Por uma semana retornei diariamente a este filme, saindo a cada vez c/ uma espécie de festa na cabeça, p/ não dizer esperança, palavra talvez imprecisa p/ afirmar alegria propulsora. É o terceiro filme de uma trilogia que desconheço, dirigida por Felipe Bragança e Marina Meliande, e ao lado de Belair (ambos têm diferenças importantíssimas) um dos filmes recentes que mais me emocionaram.

Acompanhei pouco a repercussão do filme na imprensa, somente a tradicional zapeada, mas aqui e ali esbarrei numa ressalva frequente acerca da “falta de direção de atores” em A alegria. Creio ter compreendido o que se quis dizer c/ isso, contudo penso que certos defeitos são fundamentais naquilo que contêm de alternativas aos acertos já cometidos por outros. P/ dizer a verdade, o único defeito que julguei significativo foi a pouca nitidez do audio, diversos diálogos eu só pude compreender a partir da terceira vez no cinema, de resto me encanta a atuação antinaturalista, as expressões, gestos e dicções plenamente fabulares ali onde tudo é fábula e nada existe. Não existe aquele Rio de Janeiro, ou melhor, ele agora existe, o filme nos atravessa c/ não poucas cenas pelas quais agradecemos, pois não existiriam caso não nos tivessem sido mostradas ali.

Algumas expressões e enquadramentos me dão a impressão de ser obra informada no cinema de horror, algo p/ o que coopera a captação sinistra do vento em grande parte das tomadas externas, ou o modo como certas frases são ditas (“tomar tiro, dói?”; “eu tenho raiva de quase tudo”), mas é apenas uma impressão, conheço tanto de cinema de horror quanto de alpinismo ou hotelaria. Quaisquer que sejam as referências, é uma linguagem que se propõe ali, um tipo de cinema que se nos torna possível e que me dá vontade de estar vivo p/ conhecer as demais obras dos diretores e aquelas que ainda farão. Em casos assim falar em defeitos não diz nada, pois o interesse do filme está naquilo em que não conversa c/ nossas expectativas, nem p/ confirmá-las, tampouco p/ negá-las. Aliás, vejam como são as coisas, ao ver o trailer me soou como lance de mera presunção o aviso “um filme de super-heróis”, pois àquela altura não conseguia supor que fosse literalmente isso, um filme de super-heróis, monstros e outros tipos de atrevimento.

Reproduzo aqui duas versões do trailer de A alegria p/ dar a ver quantas cenas for possível, infelizmente não encontrei mais nada disponível no Youtube. Haveria ainda mais a ser dito, contudo apenas coisas que eu preferiria dizer em presença, falando alto e gesticulando muito. As cenas da transformação da protagonista, quando ela se torna capaz de atravessar paredes, a capacidade alegórica dos gestos mínimos da batalha que trava na praia c/ o oponente marinho, a pergunta “você tem medo de ficar covarde? c/ que idade isso é normal?”, a imagem da saudade no pai deitado junto à fonte coberta de espuma, eu chorei feito uma chuva forte vendo aquilo tudo e lhe desejo o mesmo.

Algumas das cenas mais bonitas do cinema brasileiro recente estão nesse filme de super-heróis e monstros, proposições de sonho e acintes. Todas as vezes à saída do cinema havia quem chiasse pelo “excesso de inocência” do filme, vejam do que a utopia é capaz. Em minha cabeça eu dizia cuidado c/ a inocência, pois enquanto os corvos observam a cova que cavaram p/ seu cadáver ela vem por trás e lhes empurra vala adentro.

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2 thoughts on “A alegria

  1. Pingback: Cultura em 2011 | zema ribeiro

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