G. Corso na Coyote

Nalgum ponto de 2009, noite fria de enfrentar a serpente do trânsito de Jaguaré à Av. Paulista p/ ver o escritor Sebastião Nunes em carne, osso & escárnio dar pauladas gerais nos almofadinhas da cultura aglomerados em anódino evento literário, topando c/ a figura sempre-bem-vinda do poeta Ademir Assunção, joguei-lhe na mão um exemplar da Revista de Autofagia c/ minhas traduções de K. Rexroth e Bill Knott. Ele curtiu e perguntou se não havia outras daquelas na gaveta e, blefando, respondi que alguns poemas de Gregory Corso, que na verdade eu apenas ensaiava traduzir àquela altura. Fiquei de lhenviar algo e de lá p/ cá, entre idas & vindas de mil revisões, traduzi 12 poemas de Corso, dos quais seis foram publicados na Coyote. Vertigem barra-pesada, a linguagem de Corso, trabalheira total, ainda sinto que as versões ficaram um tanto duras, em todo caso espero que divirtam. Vê-las na Coyote (esse objeto estranho que, sabe-se lá como, encontrei um dia na prateleira duma extinta livraria de São Luís e bateu na veia — como dizia um amigo perdido na poeira desses mesmos dias), além do mais, é uma alegria.

Ademir reproduziu alguns dos poemas na Espelunca, segue abaixo um dos que não entraram na revista, de que gosto bastante.

SONHO COM A ESTRELA DO BASEBALL

Sonhei com Ted Williams
curvado uma noite
contra a torre Eiffel, chorando.

Ele vestia uniforme
e o taco deitado a seus pés
– nodoso e farpado.

“Randall Jarrell chamou você de poeta!” gritei.
“Eu também acho! Você é um poeta!”

Ele apanhou o taco com suas mãos exaustas;
arqueou as pernas em posição de batedor,
e riu! lançando sua fúria de menino
na direção dalguma base imaginária
– esperando o arremesso vir direto lá do céu.

E veio; centenas vieram! tinindo!
Ele gingou e gingou e gingou e rebateu não uma
bola curva nem dois ou três lances difíceis.
Centenas de bolas certeiras!
O juiz com roupa igual a um chafariz
trovejou sua sentença: PRA FORA!
E o terrível uuuhhh da multidão fantasma
dispersou as gárgulas de Notre Dame.

E gritei no meu sonho:
Deus! lança teu piedoso arremesso!
Anuncia a quebra dos tacos!
Saúda a bola rápida!
Vivas ao drible, ao trible!
Hosanas à Volta Olímpica!

DREAM OF A BASEBALL STAR I dreamed Ted Williams/ leaning at night/ against the Eiffel Tower, weeping.// He was in uniform/ and his bat lay at his feet/ – knotted and twiggy.// ‘Randall Jarrell says you’re a poet!’ I cried./ ‘So do I! I say you’re a poet!’// He picked up his bat with blown hands;/ stood there astraddle as he would in the batter’s box,/ and laughed! flinging his schoolboy wrath/ toward some invisible pitcher’s mound/ – waiting the pitch all the way from heaven.// It came; hundreds came! all afire!/ He swung and swung and swung and connected not one/ sinker curve hook or right-down-the-middle./ A hundred strikes!/ The umpire dressed in strange attire/ thundered his judgment: YOU’RE OUT!/ And the phantom crowd’s horrific boo/ dispersed the gargoyles from Notre Dame.// And I screamed in my dream:/ God! throw thy merciful pitch!/ Herald the crack of bats!/ Hooray the sharp liner to left! / Yea the double, the triple!/ Hosanna the home run!

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