Lucas Santtana

Lucas Santtana é uma síntese p/ mim preferida das qualidades fundamentais de sua geração, que à parte oxigenar o, digamos, imaginário da canção — especialmente no que se refere à total e desencanada abertura a matrizes sonoras e poéticas (não estou falando de “fusão de gêneros” mas do descentramento daquilo que é reconhecível enquanto música popular brasileira, nomenclatura cercada de sociologismos e nenhum suíngue), sem dúvida um processo conhecido de nossa dinâmica cultural –, além de oxigenar o imaginário da canção, eu dizia, soube tomar conta integralmente das etapas produtivas da música, a começar da engrenagem do estúdio, poderosa ferramenta de criação e liberdade.

Este segundo ponto costuma se investir de ênfase quando se toca no assunto, menciono-o ainda que à beira de um clichê por parecer-me, mais que mero dado contextual, toda uma maneira de pensar a composição. É o que me dizem faixas como “O violão de Mario Bros”, “Super violão mashup” (do disco Sem nostalgia) e “Reclame 302” (Electrobendodô), sem contar o modo como os discos Three sessions in a greenhouse, Parada de Lucas e o próprio Sem nostalgia ensinam que o dub não é mesmo gênero mas abordagem, modo de entender e orquestrar frequências, quem sabe não necessariamente um privilégio da música.

Ele acaba de lançar outro belo novo disco, O deus que devasta mas também cura, disponível, como todos os demais, em seu site. Haveria muito o que dizer, pois creio que Lucas Santtana, além de fazer um bom som, está propondo uma série de caminhos e de materiais p/ o pensamento (“O violão de Mario Bros”, a começar do título, é um verdadeiro gesto), me limito à primeira impressão que tive de sua música, através de Sem nostalgia, imediatamente me alegrei c/ aqueles violões informados no reggae, que é devorado c/ uma tal inteligência que só recordo ter ouvido em Itamar Assumpção. Depois, Parada de Lucas bateu como anos antes havia batido Livro, de Caetano Veloso, evidentemente por serem ambos discos de axé, ambos encarnando lindamente aquela frase (um horror citá-lo) de Borges, “não sou inimigo de gêneros”, coisa assim. Gosto especialmente de “Lycra-Limão”, em que toma corpo uma espécie de musa da vida miúda em versos como “menina me dê/ seu jeitinho vulgar/ de topzinho chinelinho ou calção/ é de lycra-limão”, ou nestes, que entraram de vez p/ minha mochila da alma — “é desafinado/ é mais que dissonante”, reversão rabelaiseana (ou mera viagem minha) da ironia-manifesto de Tom Jobim e Newton Mendonça.

Lamento apenas tê-lo visto uma única vez, em brilhante apresentação no Sesc Pompéia, um show inteiramente composto de versões p/ músicas de Tom Zé (que o assistia a meu lado, coisa que teve um efeito encantatório e paralisador). É que a maioria das apresentações às quais haveria possibilidade de presenciar ocorrem no Studio SP, e confesso ter uma incontornável alergia à “cena” e seus modernos, se me faço entender.

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3 thoughts on “Lucas Santtana

  1. *

    Vi teu poema “Tempo bom sobre ruínas” exposto na parede de uma casa no reviver, onde rolava uns shows ontem. Achei ótimo.

    Responder

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