Sem caráter, sem critério, sem vergonha


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[Esta “exposição de motivos” foi publicada no Guesa, suplemento do Jornal Pequeno, no último sábado, em São Luís. O editor havia pedido algo sobre o “projeto da revista Pitomba!”, isto é, algo sem nenhum cabimento. Pelo menos é um texto curto… Celso e Bruno também escreveram. A obra acima é do artista Diego Dourado, e a que encerra o post é de Bruno, ambas saíram na revista.]

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Alguns toques sobre uma revista sem sentido

Pitomba!, a revista, não tem projeto editorial, apenas um propósito: distribuir buquês de dinamites. É uma revista sem critério, e também sem caráter. Felizmente, muitos entendem o que isso quer dizer.

Nalgum momento, já vão alguns anos, começamos a conversar – Bruno Azevêdo, Celso Borges e eu. Não estou dizendo que nos tornamos amigos, já o éramos, mas que uma energia comum, uma vitalidade enorme, começou a pintar por causa do papo que mantínhamos, e da frequência sensível que compartilhamos, na sintonia de tesão & raiva. Em ocasiões assim, entre nós, não se poderia escapar à pergunta: como é, a gente não vai fazer uma revista?

Certamente, uma pergunta que passou mil vezes pela boca de cada um. Como na conhecida piada, três amigos que, velhinhos, ainda se encontrarão em leitos paralelos de UTI, e entre gotas dalgum suspeito soro perguntarão: vamos fazer um zine? O lance é ocupar as mãos e todos os espaços, afinal se existem serão ocupados, melhor que seja por nós. Como se vê, é uma tática sem nenhum objetivo, o que nos desobriga de tudo o que não esteja em nosso desejo. Não falamos em nome da cultura, mas da curtição.

Em pouco mais de um ano, com regularidade aleatória, saíram quatro edições; a quinta está na agulha. O principal é que estamos agregando pessoas do barulho, uma pequena fraternidade de armas. Muitas descobertas, talvez por conta de uma ideia inicial, de acossar preferencialmente artistas que estivessem entocados nas sombras do Norte e do Nordeste. Obviamente não por folclore, coleguismo, estelionato e outras boferagens, apenas para tentar sacar uma outra turma, como de fato. Mas não é um “compromisso” que temos, e a ideia cai quando bem entendermos.

De qualquer forma, um pessoal instigado, dos quais cito de memória Eduardo Cordeiro, Marilia de Laroche, Rafael Rosa, Flávio Reis, Luís Inácio Oliveira, Micheliny Verunschk, Carlos Loria, Tazio Zambi, Dyl Pires, John Cage, Jorgeana Braga, Lawrence Ferlinghetti, Rafael Campos Rocha, Tadeu Sarmento, Ricardo Borges, Grant Morrison, Gabriel Góes, Érica Zíngano, Cláudio Costa, Amaral, Cesar Teixeira, Eduardo Jorge, Fernando Mendonça, Carlos Augusto Lima, Josoaldo Rego, Ricardo Campos, William S. Burroughs, Samarone Marinho, Kenneth Rexroth, Márcio Vasconcelos, Whitney Houston etc. & tal, entre poemas, desenhos, HQs, ficções, fotografias e outros lances.

Conhecida pelo projeto gráfico revoltante, e pela qualidade duvidosa da impressão, a Pitomba! também não faz distinção de “gênero”, como dizem. Qualquer coisa que possa ser impressa, colagens, fotonovelas, até poemas. O que interessa é a coisa bater: não nos importa de onde ela vem, mas do que é feita.

Além do mais, gostamos de debochar. No Maranhão, zumbis se fartam com a carne morta das homenagens; a homenagem, como se sabe, é a erva daninha da inteligência, e infantiliza a sensibilidade. É uma arte da domesticação, o elogio como forma de convencimento, e atravessamos o século XX nessa onda, sem distinção de classe: acadêmicos mofados, poetas oficiais, compositores de jingle, jornalistas sem senso, muito menos o crítico, pés-rapados e malucos, todos muito sérios, cheios de caras e bocas, esperando virar nome de praça.

Tudo o que se pretende sério pertence à alçada do patrimônio, isto é, daquilo que buscamos depredar. Estamos certos de que as artes do século XXI, que ainda não começou, serão o assalto a banco, o sequestro-relâmpago e a pornografia.

A começar do nome, a Pitomba! pode se gabar de ter desagradado muita gente de bom gosto – mas sem nenhum paladar. Sempre que preciso explicá-la, me agrada dizer que é uma publicação de poesia, artes gráficas & sacanagem. Por certo não explica muito, mas poupa trabalho inútil, afinal entende quem já entendeu, e quem não entendeu até agora não vai entender nunca.

O nome, a propósito, vem do selo Pitomba! livros e discos, pilotado por Bruno Azevêdo. O selo é uma “declaração de existência”, como ele costuma dizer, e tem a adesão, como a revista, de uma turma afiada que vem engrossando o seu catálogo. Do próprio Bruno, saíram Breganejo Blues, O Monstro Souza e o primeiro volume de Isabel Comics!; de Celso Borges, Belle Epoque; Flávio Reis lançou Guerrilhas (coedição com o Vias de Fato); e Dyl Pires, O perdedor de tempo.

Outros virão, todos no esquema Edições Do Bolso, Distribuição Na Marra. Afinal, não há o que esperar.

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2 thoughts on “Sem caráter, sem critério, sem vergonha

  1. Pingback: Só me tornei editor porque não arrumei um! | zema ribeiro

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