Anotações p/ uma teoria da maconha

As primeiras vezes são incontroláveis, e só depois vem a capacidade p/ a bruxaria. Muitos têm sono, ou ficam confusos; estes não foram feitos p/ a diamba, como alguns não foram feitos p/ o compromisso ou a trapaça. Outros, astronautas, estudam o comportamento dos efeitos; as intensidades, as extensões. C/ a prática, se tornam capazes de direcionar os estados de prazer p/ a criação, que é irmã do gozo. Onde existe prazer, estamos por inteiro; estamos presentes. Criar, como o gozo, é uma decorrência de sentir-se vivo; ambos são razões suficientes p/ se manter vivo. A sensação de estar vivo é amiga da contemplação, que é o prazer estético de amar as coisas, estar ligado a tudo pelos pés. A diamba se dá bem c/ aqueles que contemplam e criam porque o seu aprendizado é das sensações. Tudo se conduz pelos canais perceptivos: paladar, olfato, carne, ouvido, visão, ganham perspectiva e nitidez. A experiência de ouvir um disco (especialmente os que foram feitos p/ isso), saborear um gosto, se adensa, tão complexa quanto “o modelo aerodinâmico do besouro”, porque a maconha favorece o contato direto, fora das mediações culturais, realiza o desmanche da rotina perceptiva. Sensação de que ouvimos um som como ele foi ouvido pela primeira vez, sem contexto, ou seja, sem espera, expectativa, “estranho como a 1a Coca-Cola”. Atuando na contemplação, a diamba deixa a História em suspenso. Gozamos e esquecemos nosso próprio nome – mas estamos muitos atentos. Quando nos entregamos ao ser das coisas, abrimos uma porta de devires. É isso, talvez, o que se aprende a manusear, um modo de entrar na experiência-MUNDO sem ressalvas, p/ pertencer a todas as sensações, como são os poetas. E logo se começa a criar a todo momento.

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3 thoughts on “Anotações p/ uma teoria da maconha

  1. Ju

    De Hélio para Lygia

    “Agora não sinto necessidade de construir objeto mas uma lata cúbica vazia me deu vontade de colocar água nela e pronto: é para que se olhe aquela lata com água, olhe-se como num espelho, o que já não é apropriação como antes mas o objeto aberto essencial, que funcionará conforme o contexto e a participação de cada um; a esteira estendida no chão também. Creio que aquele Plástico seu, lembra-se, sem nada para desenhar com a mão, ou o Respire Comigo tinham esse sentido, que adoro e considero atualíssimo. Mas não quero mesmo o objeto, que contradição! Quero a descoberta como se sob o efeito de maconha: a descoberta do dentro, sei lá de quê, o gosto de viver, amargo ou doce, talvez o objeto essência no sentido de uma casa total com lugares privilegiados para sentir o “lazer vivido”; […] é isso que me atrai nas experiências: a vida, o achar.”

    Cartas 1964-74 Lygia Clark – Hélio Oticica, página 52-53.

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