O afeto é uma energia ilimitada

[Em que me atenho a nacos de memória e ordeno
o mínimo possível de uma temporada impossível]

 

 

Viro os olhos no voo da abelha. Por onde passo me demoro observo padrões de nuvens. Uma poeta inglesa diz que a faço lembrar dos loucos de rua c/ os meus crazy rhythms of portuguese. Uma artista de rua boliviana só conhece duas palavras em português, saudade e maconha.

Mal desembarco já me encontro entre pessoas na mesma onda, el mismo flow, interessadas na experiência possível ali naquela situação propícia. Conheci Narcís Rovira, o fotógrafo da Catalunya que viaja sem saber p/ onde vai, apenas vai, e diz gostar do meu trabalho porque percebe o mundo como frequência e contato; e Alejandra García Navia, que pinta faixas de pedestre na Bolívia, desenhos, jogos no lugar das faixas brancas, ela diz ter vontade de tirar os sapatos durante minha fala. Duas das pessoas mais livres que já conheci na vida, entre tantas, comigo desde o aeroporto de Londres até a estrada p/ Nottingham, me ensinam e comovem a viagem inteira.

***

Não conhecia nenhum dos brasileiros que se apresentariam no WEYA, tampouco Ricardo Ribenboim e Gustavo Seraphim, que organizaram a delegação e cuja presença foi fundamental, grandes figuras. Todos se conectaram e nos tornamos amigos, de fato, c/ cumplicidade e interesse pelo trabalho uns dos outros, c/ vontade de conversar. Os dançarinos Eduardo Fukushima e Julia Rocha (também poeta), o rapper Flavio Renegado, o dramaturgo Pedro Vilela, o artista Fabricio Lopez, e a dupla de estudantes Mateus de Souza e Bruno Gomes, que apresentou um documentário sobre os refugiados haitianos vivendo na Amazônia, na situação que se sabe. São artistas que pesquisam, que se movimentam, bastante maduros e craques na gestão de seu próprio trabalho. Foi muito proveitoso trocar impressões sobre poesia c/ uma turma de olhos livres. Sem dúvida, algumas conversas irão se tornar colaborações, e amizades longevas.

P/ mim, o melhor do WEYA se deu nesse nível, inclusive os trabalhos de que mais gostei, como o do santista Fabrício Lopez. Numa tarde de bobeira e ideias na residência onde nos hospedaram ele sacou da mala incríveis xilogravuras xamânicas p/ um brisado círculo composto por uma escritora argentina, um músico libanês e um poeta nordestino. Ganhei de presente a gravura duma cobra, muito impressionante.

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Outra experiência decisiva foi a convivência c/ os artistas bolivianos, e alguns uruguaios. Me aproximar afetivamente, me envolver c/ o trabalho de adoráveis grafiteiros, fotógrafos, artistas plásticos, músicos, dançarinos, me reconhecer no modo de ser totalmente das ruas desses caras. É verdade que fui ao Reino Unido para me descobrir boliviano, e latinamericano. Os bolivianos são os nordestinos da Latinamérica, além do mais bebem à Pachamama, respeitam o chão onde pisam. Minha sensibilidade sintoniza c/ a deles porque aprendo poesia c/ o chão.

Por exemplo, Marco Antonio Quelca Huayta, o chef, sentia o mesmo incômodo que eu em relação aos seus pares. Os demais chefs cozinhavam p/ a degustação, mas ele queria falar de seu povo e história através dos sabores. Un capo, Marco produz uma cozinha ritual, e realiza delicadas esculturas em melancia. Tem uma consciência muito sofisticada do que faz, também é uma das figuras mais impressionantes que já conheci. Me encanta seu modo de falar, como o de Pablo Cartagena, el MeXist, um irmão que reconheci logo que nos conhecemos, alma exuberante, um ás do grafite e dono dum bar em Cochabamba que espero não tardar a conhecer.

Estou sempre ouvindo a conversa dos dois, buscando aprender a gíria louca. Uma vez, eu e Marco nos encontramos sem saída num fim de noite, regressamos juntos à residência, descobrindo afinidades. A mesma raiva, o mesmo encanto, o amor, um desprezo pelos pedidos de perdão e o brilho falso do mercado das artes. No dia seguinte, me ensinou a fumar como um índio boliviano, como Alejandra me levara a Pachamama, entre tantas iniciações.

Ela, como diversos artistas, teve problemas p/ expor seu trabalho. Pintar as ruas e grafitar são atividades ilegais no Reino Unido, como quase tudo. Era comum cruzar c/ artistas que não sabiam o que iriam fazer, alguns só teriam chance de mostrar seu trabalho nos estertores do evento, ou nem isso. Alguns encontraram sua forma de protestar, como a fotógrafa espanhola Cristina Ibañez-Tarter, que afixou em várias galerias uma pequena placa onde se lia invisible, o que me emocionou bastante.

***

Me apresentei na Backlit Gallery, um espaço fora do centro de Nottingham, bastante propício. Um prédio cru, mal entrei e senti vontade de tirar os sapatos p/ sacar melhor. Foi um dos primeiros eventos do festival, no dia 7, fim da tarde. Tudo muito rápido, eu havia chegado na noite anterior e não dormira nada, entusiasmado como todos ligado até alta hora nos primeiros contatos. Só consegui entrar em foco na própria galeria, minutos antes de falar, o que contribuiu p/ que eu alcançasse um estado de fragilidade e entrega.

Fui recebido pelo poeta Robin Vaugham-Williams, coordenador do programa de literatura. Um sujeito gentil, c/ quem tive as melhores conversas sobre poesia. Tecnicamente, a apresentação ficou aquém do que desejei, ainda assim penso que funcionou. Apresentei um experimento, no qual muitos aceitaram entrar. Gregos brasileiros latinos egípcios espanhóis ingleses me presentearam c/ palavras gentis, e além do mais de grande compreensão. Muitos sacaram o ritual, curtiram a música das palavras, ou sugeriram caminhos, c/ generosidade.

Na verdade, CAIXAPREGO adquiriu nova dimensão depois desses dias. Se começou numa viagem fora do tempo a São Luís, agora me sinto fora do tempo e do espaço. Meu desejo é da idade da Terra.

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Comigo se apresentaram o uruguaio Camilo Baráibar, o português José Trigueiros e o italiano Francesco Cozzolino. Foi uma noite de investigações, cada um sugerindo modos de vocalizar e performar. Foi uma exceção aos eventos de literatura do WEYA, tanto pela existência de pesquisa quanto porque cada um deu seu jeito de fazer sentido em sua própria língua. O que vi nos demais eventos eram leituras de conteúdo, ingênuas ou desinformadas, no melhor estilo prosa preguiçosa, “hoje acordei e tomei café preto, e pensei um pouco e aqui ofereço, emocionado, uma lição”. Saturado disso compreendi a necessidade de Kenneth Goldsmith alhures, ou seja, longe de mim. Também quase sempre falavam em inglês, e não entendo um escritor que sai do Egito ou da Zâmbia p/ esconder sua língua e se desculpar pelo inglês ruim.

***

A importância que dou a minha circunstância histórica e política, também nisso me reconheci entre os latinamericanos. Vi coisas excelentes, em performance, artes visuais e música, dos lugares mais surpreendentes, mas fascinadas demais pela “boa técnica”, a metalinguagem e outras modalidades de auto-referência. Em compensação, conheci Imad Hashisho, um autêntico malandro do Mediterrâneo que, c/ sua fala suave, me contou sobre seu mestre, um músico cego, telepata.

Oscar Figueroa, outro amigo boliviano, me conta sobre sua avó, que deixava o cigarro queimar inteiro, sem bater as cinzas, e nelas lia o futuro. Ele levou ao WEYA uma instalação em que se produz som em contato c/ uma escultura de bronze temperada por um software. Era um lance brilhante, instigado, mas muito pesado, e precisava ser levado de um lado a outro, era uma obra p/ a rua. Nessas horas me juntava à turma e ajudava a carregar capengamente alguma coisa e o artista Mikele Rollano, certa vez, como p/ afirmar que tudo daria certo, disse somos ocho manos. Somos una araña.

Sensações demais a ordenar. Viro os olhos no voo da abelha. Por onde passo me demoro observo padrões de nuvens.

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12 thoughts on “O afeto é uma energia ilimitada

  1. André Lisboa

    “Minha sensibilidade sintoniza c/ a deles porque aprendo poesia c/ o chão”. Valeu pela descrição. A viagem foi mesmo linda! Grande abraço!

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