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cosmonauta do espaço interior

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Ando lendo com muito prazer e proveito O Retorno à Cultura Arcaica (The Archaic Revival), coletânea de textos e entrevistas do botânico, ecologista e “explorador” Terence McKenna (1946-2000). Cheio de lucidez, beleza teórica, imaginação descritiva e generosas informações técnicas, McKenna fala do papel central que têm as plantas psicodélicas na história (e no futuro) da espécie humana. A partir da experiência com substâncias de uso religioso milenar – a psilocibina, o DMT (encontrados em cogumelos) e a ayahuasca – o autor expõe uma bem fundamentada hipótese acerca do impacto que os alucinógenos tiveram no formação biológica dos seres humanos: a produção de êxtase visionário estaria diretamente ligada ao aparecimento da consciência e da linguagem entre primatas. Hoje, esses vegetais singulares teriam muito a contribuir na reinvenção de formas de vida e padrões sociais, graças ao autoexame a que submetem o sujeito, quando dissolvem balizas ideológicas, tabus e réguas culturais. Nada mais distante do estereótipo das drogas e do vício: para Terence McKenna, uma definição razoável de droga “nos faria legalizar a psilocibina e proibir a televisão”.

[txt p/ a coluna Minha Estante, do jornal Gazeta de Alagoas, publicado em 9 de fevereiro]

Sem caráter, sem critério, sem vergonha


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[Esta “exposição de motivos” foi publicada no Guesa, suplemento do Jornal Pequeno, no último sábado, em São Luís. O editor havia pedido algo sobre o “projeto da revista Pitomba!”, isto é, algo sem nenhum cabimento. Pelo menos é um texto curto… Celso e Bruno também escreveram. A obra acima é do artista Diego Dourado, e a que encerra o post é de Bruno, ambas saíram na revista.]

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Alguns toques sobre uma revista sem sentido

Pitomba!, a revista, não tem projeto editorial, apenas um propósito: distribuir buquês de dinamites. É uma revista sem critério, e também sem caráter. Felizmente, muitos entendem o que isso quer dizer.

Nalgum momento, já vão alguns anos, começamos a conversar – Bruno Azevêdo, Celso Borges e eu. Não estou dizendo que nos tornamos amigos, já o éramos, mas que uma energia comum, uma vitalidade enorme, começou a pintar por causa do papo que mantínhamos, e da frequência sensível que compartilhamos, na sintonia de tesão & raiva. Em ocasiões assim, entre nós, não se poderia escapar à pergunta: como é, a gente não vai fazer uma revista?

Certamente, uma pergunta que passou mil vezes pela boca de cada um. Como na conhecida piada, três amigos que, velhinhos, ainda se encontrarão em leitos paralelos de UTI, e entre gotas dalgum suspeito soro perguntarão: vamos fazer um zine? O lance é ocupar as mãos e todos os espaços, afinal se existem serão ocupados, melhor que seja por nós. Como se vê, é uma tática sem nenhum objetivo, o que nos desobriga de tudo o que não esteja em nosso desejo. Não falamos em nome da cultura, mas da curtição.

Em pouco mais de um ano, com regularidade aleatória, saíram quatro edições; a quinta está na agulha. O principal é que estamos agregando pessoas do barulho, uma pequena fraternidade de armas. Muitas descobertas, talvez por conta de uma ideia inicial, de acossar preferencialmente artistas que estivessem entocados nas sombras do Norte e do Nordeste. Obviamente não por folclore, coleguismo, estelionato e outras boferagens, apenas para tentar sacar uma outra turma, como de fato. Mas não é um “compromisso” que temos, e a ideia cai quando bem entendermos.

De qualquer forma, um pessoal instigado, dos quais cito de memória Eduardo Cordeiro, Marilia de Laroche, Rafael Rosa, Flávio Reis, Luís Inácio Oliveira, Micheliny Verunschk, Carlos Loria, Tazio Zambi, Dyl Pires, John Cage, Jorgeana Braga, Lawrence Ferlinghetti, Rafael Campos Rocha, Tadeu Sarmento, Ricardo Borges, Grant Morrison, Gabriel Góes, Érica Zíngano, Cláudio Costa, Amaral, Cesar Teixeira, Eduardo Jorge, Fernando Mendonça, Carlos Augusto Lima, Josoaldo Rego, Ricardo Campos, William S. Burroughs, Samarone Marinho, Kenneth Rexroth, Márcio Vasconcelos, Whitney Houston etc. & tal, entre poemas, desenhos, HQs, ficções, fotografias e outros lances.

Conhecida pelo projeto gráfico revoltante, e pela qualidade duvidosa da impressão, a Pitomba! também não faz distinção de “gênero”, como dizem. Qualquer coisa que possa ser impressa, colagens, fotonovelas, até poemas. O que interessa é a coisa bater: não nos importa de onde ela vem, mas do que é feita.

Além do mais, gostamos de debochar. No Maranhão, zumbis se fartam com a carne morta das homenagens; a homenagem, como se sabe, é a erva daninha da inteligência, e infantiliza a sensibilidade. É uma arte da domesticação, o elogio como forma de convencimento, e atravessamos o século XX nessa onda, sem distinção de classe: acadêmicos mofados, poetas oficiais, compositores de jingle, jornalistas sem senso, muito menos o crítico, pés-rapados e malucos, todos muito sérios, cheios de caras e bocas, esperando virar nome de praça.

Tudo o que se pretende sério pertence à alçada do patrimônio, isto é, daquilo que buscamos depredar. Estamos certos de que as artes do século XXI, que ainda não começou, serão o assalto a banco, o sequestro-relâmpago e a pornografia.

A começar do nome, a Pitomba! pode se gabar de ter desagradado muita gente de bom gosto – mas sem nenhum paladar. Sempre que preciso explicá-la, me agrada dizer que é uma publicação de poesia, artes gráficas & sacanagem. Por certo não explica muito, mas poupa trabalho inútil, afinal entende quem já entendeu, e quem não entendeu até agora não vai entender nunca.

O nome, a propósito, vem do selo Pitomba! livros e discos, pilotado por Bruno Azevêdo. O selo é uma “declaração de existência”, como ele costuma dizer, e tem a adesão, como a revista, de uma turma afiada que vem engrossando o seu catálogo. Do próprio Bruno, saíram Breganejo Blues, O Monstro Souza e o primeiro volume de Isabel Comics!; de Celso Borges, Belle Epoque; Flávio Reis lançou Guerrilhas (coedição com o Vias de Fato); e Dyl Pires, O perdedor de tempo.

Outros virão, todos no esquema Edições Do Bolso, Distribuição Na Marra. Afinal, não há o que esperar.

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A arte de produzir ideias perigosas

Guerrilhas, coletânea de artigos publicados por Flávio Reis na imprensa maranhense ao longo da última década, campo minado de fustigações sem centro, sobrevoa e permite ver, como numa fotografia aérea, um traço terminante da aventura de seu autor, figura de exceção entre nossos pensadores e professores – o cultivo radical da dissidência.

Permite ver, mas veja, não é que o torne visível, isso não passa batido aos leitores de suas outras obras (Cenas marginais e Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão), tampouco aos alunos do homem magro de fala digressiva segurando livros como facas, misturando dois ou três autores para ver se explode; ocorre que nessa recente investida os elementos sobem todos à mesa – temas, sim, e o território. Dança imprescindível a toda guerrilha, saber jogar com o espaço, pervertê-lo em arapuca, cemitério de engodos. No caso, é mesmo nossa imprensa que, invariável e totalmente comprometida, por mil golpes de astúcia deixou-se infiltrar pelos mordazes artigos desse livro, também o próprio território das ideias, no qual Flávio opera articulações vitais, nunca no interesse dalgum “campo” mas da erosão de nosso oco solo mental.

O olhar esclarecedor sobre as relações de força, a política e suas redondezas – descaso, cinismo, violência –, espaço antigo da reflexão do autor, que nunca cedeu ao apelo das conciliações típico de certa esquerda “prática” ou de cartilha, notadamente a universitária, incapaz de se desvencilhar do desejo de mandar adivinhado no esgoto exposto das alianças; a exímia capacidade de enredar fios de nossa história mal contada, pondo-nos à vista de nós mesmos (“Antes da MPM”, “O nó-cego da política maranhense”, “Oligarquia e medo” etc.); o mergulho em obras de arte desestabilizadoras ou no mínimo provocantes, cuja incidência sobre sua escrita é a bela mostra dum pacto com as potências da imaginação; as incursões pela psicanálise, propulsoras de conexões bombásticas – Flávio é mestre em transformar tais zonas em impulso de nutrição, aproximando-se disso ou daquilo conforme as contingências da balbúrdia.

Apenas não se confunda o prisma de temas que o autor encara com o pano surrado da interdisciplinaridade, escudo acadêmico que nunca serviu, a olho nu, para mais do que recheio de linguiça em formulários de não-sei-quantas vias. Aqui o caso é de pura indisciplina, do livre pensar e do gosto por uma boa briga.

Panorama de intervenções na parca discussão local, a mira em riste no rumo de nossa arena de ideias, o Maranhão persiste como ruído de fundo em cada tópico, sem contar que é o centro mobilizador na quase totalidade dos artigos. Começando por uma sequência de pauladas dadas no epicentro da querela em torno da fundação de São Luís, que na verdade é a discussão dos níveis inacreditavelmente obtusos, para não dizer mesquinhos, em que se deram e dão as reações ao trabalho de Maria de Lourdes Lauande Lacroix, passando pelas análises matadoras do emaranhado atávico entre política, desmando e miséria, das condutas paroquiais com relação ao poder, e da ofensiva de mídia, mercado e academia no comércio ridículo da cultura, esta insígnia a ser ostentada por uma intelectualidade (no fundo um punhado de funcionários de governo distribuídos entre repartições, instituições de saber e a “classe artística”) que a tudo vê como se a um grande curral, com narcisismo indisfarçável e característico.

Compõe-se quadro a quadro uma galeria em que figuram, por exemplo, certo juiz, personagem de Nascimento Moraes num livro de 1923, trazido à roda em Guerrilhas, juiz de faroeste a resolver tudo na bala ou no bogue, à luz do dia, em pleno centro da cidade em cenas inacreditáveis sobretudo porque poderiam ter ocorrido na tarde de ontem. Ou quem sabe se repitam amanhã, como de fato se repetiriam, na execução do professor Flávio Pereira pelo policial civil Olivar Cavalcante (o pistoleiro segue solto) e na do artista Geremias Pereira da Silva, o Gerô, espancado até a morte por uma gangue de policiais militares – à luz do dia, em pleno centro da cidade, cabeça do século XXI.

A história geral de nossa canalhice, quer se exerça pela violência elevada a valor, a distinção social, com a invariável impunidade que não cessa de adoecer nossa sensibilidade coletiva, quer se exerça pela constrangedora passividade a alimentar eternamente a estrutura de nossa sujeição, praticamente voluntária, demonstrando que a única reforma eleitoral que importa é o suicídio coletivo dos políticos.

Assistindo, como assistimos, a uma escalada do uso oficial da mentira enquanto narrativa dos “feitos” de uns e outros (nossa cota, parece, da escalada do fascismo em várias esferas da vida nacional – passarela em que desfila com o perigoso traje da falsa ausência), nem se pode afirmar que o autor, nas fissuras que causa, enfoque as coisas pelo avesso, ou se pelo avesso ele as encontra.

Flávio, claro, tem estômago. A atenção que dedica à casca grossa dos eventos não passa sem uma reversa escrita de precisão & excesso, que revela para desviar ou o contrário, dilatando pupilas, abrindo narinas, temperando perspectivas. Correm por aí, nutrindo os planos de fuga, figuras de Júlio Bressane, Elyseu Visconti, Bruno Azevêdo, César Teixeira, Celso Borges e tantos meliantes cumplices de arruaça nos quais o autor ensina a ver os truques para se manter vivo, isto é, íntegro e mandando bala.

Seu fôlego de saque se trama justamente na capacidade de farejar em temas, textos e acontecimentos o cheiro dalguma pólvora. “Isso aqui não é pra entender, mas pra sentir o cheiro”, quantas vezes não ouvi de Flávio em sala de aula ou pelas salas do afeto, diante de questões fascinantes e árduas ante as quais o lance sempre foi fazer o que se pode. Disso não faltam mostras em seu texto ágil, cheio de toques analíticos jamais impostos à força de argumentações exaustivas, mas ofertados na fluência de caracterizações e imagens.

A condição do pensamento é a de estar nas curvas mais sem amparo, distante do que já se sabe e impõe-se como instância regulamentar. Não é para ordenar que se necessita de ideias. O resto são intelectuais de Sessão da Tarde, erguendo-se aqui e ali para constranger proposições de problemas (“se nada presta, que fazer?”), como se o nebuloso das respostas desmentisse a evidência das perguntas.

Que fazer, então? Sempre, apenas, o que se pode; muitas vezes se avacalha. Como Tom Zé, Rogério Sganzerla ou os Sex Pistols, Flávio Reis ensina que quaisquer ingredientes servem à feitura de bombas, desde que haja sacação, argúcia, inteligência e – sobretudo – que o sujeito não arregue. É chegado o tempo do arsenal contra o repertório.

[Guerrilhas é editado conjuntamente pela Pitomba! livros e discos e o jornal Vias de Fato, tem lançamento marcado p/ 16/02, no Chiquinho, e é uma porrada, verdadeira lição de violência do pensamento.]

São Paulo fev. 2012

p/ Luiza De Carli & Marcio Honório de Godoy

Não tenho dúvida, até onde se pode não tê-la, de que o capitalismo também terá seu ocaso — não por crendices dos técnicos do progresso mas por não subestimar a potência do movimento. Não se planeja derrocar uma Roma, não se acorda uma manhã qualquer c/ a resolução de dar início à Renascença. Há contudo dias propícios à ação, eras em que a malha elétrica da violência habita densamente o ar e toda a fauna dos esgotos sobe à superfície. Assim desponta esta cabeça de século, em que o fundamental não é conter o avanço das energias mortais do conservadorismo, do fascismo e de tudo o que seja lógica de rebanho — delas, como de resto de nenhum poder, não é possível refrear uma forma, já sabemos que o poder não é uma forma — fundamental é que a cada golpe seu sobrevenha reação como de mil trovões a galope. Por aí se dá ao acaso a chance de aspergir no terreiro da História a faísca maldosa da revolta.

São Luís jan. 2012

p/ Luciano Nascimento

O reitor da UFMA, Natalino Salgado, entidade Dono da Rua, devasta as dimensões amplas da natureza p/ abrir estradas completamente desnecessárias, mas os bancos nos jardins internos do Bloco 6 do CCH (“fumódromo de 7:30 às 13:59 / 16:01 às 24:00”; “a loucura é a conquista do inconsciente”; “o crack é uma categoria a priori?”; “coordenadores vão → & vêm ← a maconha é eterna”) estão caindo enquando dançamos sobre eles.

José Agrippino de Paula, malabarista solitário dos limites

Num diálogo que encampa em A mulher de todos, de Rogério Sganzerla, José Agrippino de Paula é questionado por Ângela Carne e Osso, a personagem de Helena Ignez, “qual a sua verdadeira identidade?”. Ao que metralha alegremente de volta – “Zulu Anárquico!”. No filme, é um traficante de armas como Rimbaud, dá um giro pela África, some sem vestígio ou rastro, qual Rimbaud. Vida anárquica, provocações e alucinógenos.

“Ele tá fora de qualquer enquadramento”, diz o diretor Luiz Fernando Resende, a certa altura do filme Passeios no Recanto Silvestre. Embora se refira propriamente à relação de José Agrippino de Paula com o audiovisual, a frase ricocheteia de imediato noutras direções. Repercute no contexto do desenquadramento mais amplo produzido pela contracultura brasileira, essa fatia festiva da subversão ou de seu sonho, na qual sua obra foi fermentada e para a qual contribuiu com seus temperos. Também o conjunto da sua produção está “fora de qualquer enquadramento”, restando, talvez, desenquadrar a sua leitura, para dizer algo acerca de sua relação com a linguagem, com as linguagens, todas elas.

De modo determinante, existe a relação dispersiva que Agrippino estabelece com as artes, o caráter terminantemente multimidiático, pulverizado, de sua criação. “Carrego fragmentos”, diz a certa altura o narrador de Lugar público, e a questão parece esta – é impreciso chamá-lo Escritor Sem Nome. Se é verdade que sua obra literária mínima é demolidora o suficiente para que PanAmérica seja sozinho referência crucial à sua e às gerações seguintes, não dá para esquecer que o autor condensa um imperativo caro à contracultura – experimentar.

Desregramento integral, desbunde na criação e na existência, pois àquela altura ninguém duvidaria serem a mesma coisa. “Escute meu chapa, um poeta não se faz com versos”; “pra ser poeta é preciso ser mais que poeta”; preciso é colocar-se “na esfera da produção de si-mesmo”. Agrippino, recorda-se Jorge Mautner, enxergava os escritores brasileiros como uns funcionários sedentários, que não percebiam o quanto eram importantes para a escrita atividades como lavar pratos, ou cortar árvores.

Um irredutível, profundo vitalismo, que se espraia noutras direções. Certamente na direção de testar espaços periféricos à literatura, esta senhora. Torquato Neto e sua fissura pelo Super-8; Paulo Leminski interessado em vídeo, música popular, publicidade, histórias em quadrinhos; Waly Salomão em trânsito sobretudo com Hélio Oiticica, Lygia Clark, Jards Macalé; Jorge Mautner com sua literatura bombástica, sua música e os roteiros de cinema – não raro, os espíritos inquietos do período se aproximam das linguagens mais velozes, aquelas que causam micoses na pele totalitária do país e facilitam que, à revelia, a informação circule.

Deglutir informação faria parte da dieta contracultural brasileira, onívora e fragmentária em suas referências e realizações. Excesso e rapidez de informação em contraponto à capacidade repressiva da censura, que sem traço de dúvida calou muitas vozes, mas sob sua capa ainda assim articulou-se “uma rede informacional alternativa, com as páginas de [Luiz Carlos] Maciel no Pasquim e publicações como Flor do Mal, Presença, Bondinho e Verbo Encantado. Seja como tenha sido, as informações chegavam – e o caldeirão fervia”.

Configura-se aí uma experiência coletiva, brilho nos olhos ante o jardim elétrico da cultura. O acesso a mídias de difusão mais ampla que o livro abrindo possibilidades expressivas de incandescência especialmente significativa num período de opacidade coletiva. Não causa espanto que a banda mais elétrica da literatura brasileira começasse a achar pouco pôr palavra no papel (embora não seja), pouco audível, lento demais.

Esta é a cena em que se dá a obra de José Agrippino de Paula, isolada da ficção brasileira a não ser por outros criadores anômalos, fazendo travessia por linguagens mil, militando por deslocamentos de ideias e comportamentos, meios expressivos, possibilidades expressivas.

Quanto a isso vem ao caso uma formulação de Lotman, segundo a qual “as rodas da cultura giram em diferentes velocidades”. A variedade das linguagens em circulação possui igual variedade de funcionamentos, elas nem sempre se revolucionam simultaneamente, seus elementos relacionam-se complexamente com a História. Enquanto algumas pegam fogo outras têm repouso, ou entram em combustão apenas se em contato com o rescaldo de outros incêndios. É assim que a José Agrippino de Paula a literatura parecia não ter mais para onde ir – ele atropela o campo literário, e leva a roda lenta do romance ao limite doutras artes.

Disto, o primeiro indício é a insistência do escritor em afirmar que as raízes de sua ficção não ficam nem no Brasil nem no universo das letras. “‘Sou um filiado da pop art’, repete à exaustão. ‘Em 1964 a promoção da pop art era bem intensa nas revistas estrangeiras que eu consultava’”, ele bate o pé, privilegiando um chave de leitura negada a Lugar público, costumeiramente vinculado pela crítica ao nouveau roman francês ou à literatura beat norte-americana. A referência ao pop se afina com a caracterização feita por Caetano Veloso, em Verdade tropical, do escritor como um sujeito que dizia preferir os filmes de 007 ao Jules et Jim de François Truffaut. Sem descartar que seja uma provocação, a opção pelo cinema norte-americano é um traço tanto do fascínio de Agrippino por sua mitologia quanto do anti-intelectualismo – seletivo, sem dúvida – caro à contracultura. Considerando mais o que sua obra faz do que o que diz o autor, não é bem uma “filiação” que está em causa, mas a entrada da pop art no ambiente de devoras múltiplas do desbunde brasileiro. Nesta apropriação, José Agrippino de Paula está sozinho como romancista – profundamente marcado pelo repertório de seu tempo mas isolado de uma tradição romanesca.

A escrita não passa de uma das linhas de força de sua obra desagregadora. Segue-se um livro após o livro de estreia, mas depois disso o autor parte para outras, realiza filmes, dirige peças, shows.

Mas espere aí, será que esta sequência existe mesmo? Lugar público termina exatamente numa tela de cinema, talvez seu personagem assista àquilo que se filma em PanAmérica, este não-romance ou epopeia em cujo início o narrador se embrenha na superprodução hollywoodiana A Bíblia. O livro é cheio de fissuras, sintaxe de cortes secos, cenas soltas como células, em sintonia com alguns filmes brasileiros do mesmo período, inclusive os do próprio autor.

Quando perguntado, em certa ocasião, sobre as condições em que teria escrito cada um de seus livros, José Agrippino de Paula respondeu “eu escrevi os dois ao mesmo tempo”. Não deve ser verdade, mas isso diz muito de seus modos de mistura, em que linguagens se emprestam frequentemente a outros usos.

Celso Favarettolembra a noção de “texto de desgaste”, apresentada por Agrippino num roteiro para a montagem da peça Rito do amor selvagem. Obra calcada em discursos políticos e notícias de jornal, com várias faixas de áudio mixadas, contendo diálogos, ruídos, música, diversas mídias no palco, “estereótipos, restos e cacos da cultura de consumo, significantes-objetos industriais prontos para a circulação”.

Figura irredutível a especialidades, sua obra transborda das realizações para o percurso errático de sua vivência africamericana, sua saída de cena, seu mito involuntário. Tudo isso confere potência à dispersão e seu efeito desagregador. Dispersão que é uma abertura que nos oferece, também, um jogo libertário ao qual convida. Se Valêncio Xavier (para retomá-lo em paralelo) é um criador de amálgama e fusão, Agrippino de Paula opera pelo centrífugo.

Uma leitura excessivamente centrada nos livros e esquecida das mil linguagens em que se meteu deixa escapar coisas demais. Sair, assim, do vértice de PanAmérica, exercitar uma leitura que passe por outros vértices, inclusive para confrontar o que se sabe sobre esse livro. Flagrar o autor nas questões que atravessam a obra, ao invés de em cada uma das obras, talvez seja um caminho mais vigoroso que o fracionamento, pois não se fraciona o excesso a não ser para secá-lo.

[mais um trecho de Joca Reiners Terron ou a imaginação crítica, dissertação que apresento logo mais, hoje mesmo, na Escola de Comunicações e Artes da USP]