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o hacker da linguagem

Tazio é um artista raro. Ele consegue equilibrar uma grande capacidade técnica e uma destreza conceitual fora do comum, o que faz com que entenda e realize sua escrita não em termos de “algo a dizer”, mas de jogos a disparar: sua especialidade são modos de fazer.

Poeta-programador, hacker de processos, ele tem uma obra bastante inclusiva, na qual o leitor vira usuário capaz de operar a linguagem como programa. É ponta de lança, uma arte livre como um software livre.

Uma das principais alegrias que tive nos últimos anos foi conhecer Tazio Zambi, com sua inteligência vibrante e ânimo bélico, e ter contato com as flores exuberantes, coloridas e radicais que ele cria, pura invenção de táticas sensoriais. Com ele aprendo que a arte não reside na forma, mas no efeito.

Dizem que Cerco é o seu segundo livro. Mas se ligue, existe uma chamativa prateleira de diversões eletrônicas que faz tempo ele vem construindo. Uma série de projetos disponíveis online, inclusive o próprio Cerco em formato web-instalação. Assim ele é, veloz e múltiplo.

[depoimento sobre TZ, o fabbro maquinado, que escrevi p/ o jornal Gazeta de Alagoas, publicado no dia 26 de janeiro do Ano do Cavalo]

O filósofo G. Deleuze compara as sensações auditivas causadas por Lee Scratch Perry e Zion Train

“Os sintetizadores analógicos são ‘modulares’: eles põem elementos heterogêneos em conexão imediata, introduzem entre esses elementos uma possibilidade de conexão propriamente ilimitada, em um campo de presença ou sobre um plano finito em que todos os momentos são atuais e sensíveis. Ao passo que os sintetizadores digitais são ‘integrados’: sua operação passa por uma codificação, por uma homogeneização e binarização dos data, em um plano distinto, infinito de direito, e do qual o sensível resultará por convenção-tradução. Uma segunda diferença aparece no nível dos filtros: a principal função do filtro é modificar a cor de base de um som, constituir ou fazer variar o timbre; mas os filtros digitais procedem a uma síntese aditiva dos formantes elementares codificados, enquanto o filtro analógico opera muitas vezes por subtração de frequências (alta, baixa etc.), de tal modo que, de um filtro a outro, sejam adicionadas subtrações intensivas, uma adição de subtrações que constitui a modulação e o movimento sensível como queda”.

Lucas Santtana

Lucas Santtana é uma síntese p/ mim preferida das qualidades fundamentais de sua geração, que à parte oxigenar o, digamos, imaginário da canção — especialmente no que se refere à total e desencanada abertura a matrizes sonoras e poéticas (não estou falando de “fusão de gêneros” mas do descentramento daquilo que é reconhecível enquanto música popular brasileira, nomenclatura cercada de sociologismos e nenhum suíngue), sem dúvida um processo conhecido de nossa dinâmica cultural –, além de oxigenar o imaginário da canção, eu dizia, soube tomar conta integralmente das etapas produtivas da música, a começar da engrenagem do estúdio, poderosa ferramenta de criação e liberdade.

Este segundo ponto costuma se investir de ênfase quando se toca no assunto, menciono-o ainda que à beira de um clichê por parecer-me, mais que mero dado contextual, toda uma maneira de pensar a composição. É o que me dizem faixas como “O violão de Mario Bros”, “Super violão mashup” (do disco Sem nostalgia) e “Reclame 302” (Electrobendodô), sem contar o modo como os discos Three sessions in a greenhouse, Parada de Lucas e o próprio Sem nostalgia ensinam que o dub não é mesmo gênero mas abordagem, modo de entender e orquestrar frequências, quem sabe não necessariamente um privilégio da música.

Ele acaba de lançar outro belo novo disco, O deus que devasta mas também cura, disponível, como todos os demais, em seu site. Haveria muito o que dizer, pois creio que Lucas Santtana, além de fazer um bom som, está propondo uma série de caminhos e de materiais p/ o pensamento (“O violão de Mario Bros”, a começar do título, é um verdadeiro gesto), me limito à primeira impressão que tive de sua música, através de Sem nostalgia, imediatamente me alegrei c/ aqueles violões informados no reggae, que é devorado c/ uma tal inteligência que só recordo ter ouvido em Itamar Assumpção. Depois, Parada de Lucas bateu como anos antes havia batido Livro, de Caetano Veloso, evidentemente por serem ambos discos de axé, ambos encarnando lindamente aquela frase (um horror citá-lo) de Borges, “não sou inimigo de gêneros”, coisa assim. Gosto especialmente de “Lycra-Limão”, em que toma corpo uma espécie de musa da vida miúda em versos como “menina me dê/ seu jeitinho vulgar/ de topzinho chinelinho ou calção/ é de lycra-limão”, ou nestes, que entraram de vez p/ minha mochila da alma — “é desafinado/ é mais que dissonante”, reversão rabelaiseana (ou mera viagem minha) da ironia-manifesto de Tom Jobim e Newton Mendonça.

Lamento apenas tê-lo visto uma única vez, em brilhante apresentação no Sesc Pompéia, um show inteiramente composto de versões p/ músicas de Tom Zé (que o assistia a meu lado, coisa que teve um efeito encantatório e paralisador). É que a maioria das apresentações às quais haveria possibilidade de presenciar ocorrem no Studio SP, e confesso ter uma incontornável alergia à “cena” e seus modernos, se me faço entender.

Dub, pensamento

Não havia me dado conta, até recentemente, de que p/ mim o dub há tempos tem um sentido de matriz epistemológica, uma experiência do sujeito no material de trabalho que sugere bem alguns atributos decisivos p/ o modo como eu gostaria de raciocinar.

Um modo de raciocinar, não uma forma, sequer há uma forma. Embora fortemente enraizado num gênero, embora difícil & sem sentido compreendê-lo fora da frequência sensível do reggae, o dub é mais uma abordagem à música que um tipo de música. Sua alquimia consiste na livre disposição dos elementos sonoros, do multiverso em se relacionam, configurando um cosmo diverso do diagrama original da música.

Síntese & análise; não por acaso há no dub vocativos como Scientist ou Mad Professor, os versos de Lee Scratch Perry, “I’m a psychiatrist/ I am a doctor/ I’m a soul reactor”; a vocação p/ a pesquisa de timbres, ritmos & aí está, qualquer coisa pode dar um dub – o que também significa que tudo pode ser entendido, formulado doutra maneira & reciprocamente tornar mais complexa a malha do pensamento que lhe corteja, & que vai se fazendo na temperatura do contato.

Questão de tempo até eu passar a apenas ver sentido na crítica quando consegue esse tipo de intervenção no texto original, quando faz explosivos a partir do explosivo, quando é a primeira a explodir, ao invés de ficar julgando méritos c/ regras imaginárias. Que compromisso tem qualquer autor c/ minhas preferências? & por que eu desejaria impor um modo de ver a uma obra, que por certo enxerga por si própria? Melhor prestar atenção ao que dizem, autor ou obra, ver se bate, se há ocasião p/ polinizações cruzadas; melhor ainda, p/ o arrebatamento.

Em mim o desejo crítico sempre nasce da brecha p/ uma experiência, do aprendizado produtivo dalgum modo até então desconhecido de configurar o mundo. É um desejo de saber movimentar o arsenal, de um pensamento que saiba p/ que servem as obras ou que as saiba fazer funcionar nos lances de agora, não que as arrume bem na estante do repertório.

A mesa de som é a mesa de operações na qual pesquisa é experimentação & desconhecido é o que ainda se há de experimentar – não esquecendo que a ocasião nasceu de uma necessidade, de problemas a que se reage sendo livre, dançando, sem nunca parar de dançar.

O filósofo Henri Bergson se pronuncia sobre os quadrinhos de Grant Morrison

“O que se tornaria a mesa sobre a qual escrevo nesse momento se minha percepção, e, por conseguinte, minha ação, fosse feita p/ a ordem de grandeza à qual correspondem os elementos, ou antes, os acontecimentos constitutivos de sua materialidade? Minha ação seria dissolvida; minha percepção abarcaria, no lugar em que vejo minha mesa & no curto momento em que a olho, um universo imenso & uma não menos interminável história. Ser-me-ia impossível compreender como essa imensidão movente pode se tornar, p/ que eu aja sobre ela, um simples retângulo, imóvel & sólido. O mesmo valeria p/ todas as coisas & p/ todos os acontecimentos: o mundo em que vivemos, c/ as ações & reações de suas partes umas sobre as outras, é aquilo que ele é em virtude de uma certa escolha na escala das grandezas, escolha que, por sua vez, é determinada por nossa potência de agir. Nada impediria outros mundos, correspondendo a uma outra escolha, de existirem c/ ele, no mesmo lugar & ao mesmo tempo: assim é que vinte estações emissoras diferentes transmitem simultaneamente vinte concertos diferentes, que coexistem sem que nenhum deles misture seus sons à música do outro, cada um sendo ouvido por inteiro e sendo o único a ser ouvido no aparelho que escolheu, p/ a recepção, o comprimento de onda da estação emissora”.

A arte de produzir ideias perigosas

Guerrilhas, coletânea de artigos publicados por Flávio Reis na imprensa maranhense ao longo da última década, campo minado de fustigações sem centro, sobrevoa e permite ver, como numa fotografia aérea, um traço terminante da aventura de seu autor, figura de exceção entre nossos pensadores e professores – o cultivo radical da dissidência.

Permite ver, mas veja, não é que o torne visível, isso não passa batido aos leitores de suas outras obras (Cenas marginais e Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão), tampouco aos alunos do homem magro de fala digressiva segurando livros como facas, misturando dois ou três autores para ver se explode; ocorre que nessa recente investida os elementos sobem todos à mesa – temas, sim, e o território. Dança imprescindível a toda guerrilha, saber jogar com o espaço, pervertê-lo em arapuca, cemitério de engodos. No caso, é mesmo nossa imprensa que, invariável e totalmente comprometida, por mil golpes de astúcia deixou-se infiltrar pelos mordazes artigos desse livro, também o próprio território das ideias, no qual Flávio opera articulações vitais, nunca no interesse dalgum “campo” mas da erosão de nosso oco solo mental.

O olhar esclarecedor sobre as relações de força, a política e suas redondezas – descaso, cinismo, violência –, espaço antigo da reflexão do autor, que nunca cedeu ao apelo das conciliações típico de certa esquerda “prática” ou de cartilha, notadamente a universitária, incapaz de se desvencilhar do desejo de mandar adivinhado no esgoto exposto das alianças; a exímia capacidade de enredar fios de nossa história mal contada, pondo-nos à vista de nós mesmos (“Antes da MPM”, “O nó-cego da política maranhense”, “Oligarquia e medo” etc.); o mergulho em obras de arte desestabilizadoras ou no mínimo provocantes, cuja incidência sobre sua escrita é a bela mostra dum pacto com as potências da imaginação; as incursões pela psicanálise, propulsoras de conexões bombásticas – Flávio é mestre em transformar tais zonas em impulso de nutrição, aproximando-se disso ou daquilo conforme as contingências da balbúrdia.

Apenas não se confunda o prisma de temas que o autor encara com o pano surrado da interdisciplinaridade, escudo acadêmico que nunca serviu, a olho nu, para mais do que recheio de linguiça em formulários de não-sei-quantas vias. Aqui o caso é de pura indisciplina, do livre pensar e do gosto por uma boa briga.

Panorama de intervenções na parca discussão local, a mira em riste no rumo de nossa arena de ideias, o Maranhão persiste como ruído de fundo em cada tópico, sem contar que é o centro mobilizador na quase totalidade dos artigos. Começando por uma sequência de pauladas dadas no epicentro da querela em torno da fundação de São Luís, que na verdade é a discussão dos níveis inacreditavelmente obtusos, para não dizer mesquinhos, em que se deram e dão as reações ao trabalho de Maria de Lourdes Lauande Lacroix, passando pelas análises matadoras do emaranhado atávico entre política, desmando e miséria, das condutas paroquiais com relação ao poder, e da ofensiva de mídia, mercado e academia no comércio ridículo da cultura, esta insígnia a ser ostentada por uma intelectualidade (no fundo um punhado de funcionários de governo distribuídos entre repartições, instituições de saber e a “classe artística”) que a tudo vê como se a um grande curral, com narcisismo indisfarçável e característico.

Compõe-se quadro a quadro uma galeria em que figuram, por exemplo, certo juiz, personagem de Nascimento Moraes num livro de 1923, trazido à roda em Guerrilhas, juiz de faroeste a resolver tudo na bala ou no bogue, à luz do dia, em pleno centro da cidade em cenas inacreditáveis sobretudo porque poderiam ter ocorrido na tarde de ontem. Ou quem sabe se repitam amanhã, como de fato se repetiriam, na execução do professor Flávio Pereira pelo policial civil Olivar Cavalcante (o pistoleiro segue solto) e na do artista Geremias Pereira da Silva, o Gerô, espancado até a morte por uma gangue de policiais militares – à luz do dia, em pleno centro da cidade, cabeça do século XXI.

A história geral de nossa canalhice, quer se exerça pela violência elevada a valor, a distinção social, com a invariável impunidade que não cessa de adoecer nossa sensibilidade coletiva, quer se exerça pela constrangedora passividade a alimentar eternamente a estrutura de nossa sujeição, praticamente voluntária, demonstrando que a única reforma eleitoral que importa é o suicídio coletivo dos políticos.

Assistindo, como assistimos, a uma escalada do uso oficial da mentira enquanto narrativa dos “feitos” de uns e outros (nossa cota, parece, da escalada do fascismo em várias esferas da vida nacional – passarela em que desfila com o perigoso traje da falsa ausência), nem se pode afirmar que o autor, nas fissuras que causa, enfoque as coisas pelo avesso, ou se pelo avesso ele as encontra.

Flávio, claro, tem estômago. A atenção que dedica à casca grossa dos eventos não passa sem uma reversa escrita de precisão & excesso, que revela para desviar ou o contrário, dilatando pupilas, abrindo narinas, temperando perspectivas. Correm por aí, nutrindo os planos de fuga, figuras de Júlio Bressane, Elyseu Visconti, Bruno Azevêdo, César Teixeira, Celso Borges e tantos meliantes cumplices de arruaça nos quais o autor ensina a ver os truques para se manter vivo, isto é, íntegro e mandando bala.

Seu fôlego de saque se trama justamente na capacidade de farejar em temas, textos e acontecimentos o cheiro dalguma pólvora. “Isso aqui não é pra entender, mas pra sentir o cheiro”, quantas vezes não ouvi de Flávio em sala de aula ou pelas salas do afeto, diante de questões fascinantes e árduas ante as quais o lance sempre foi fazer o que se pode. Disso não faltam mostras em seu texto ágil, cheio de toques analíticos jamais impostos à força de argumentações exaustivas, mas ofertados na fluência de caracterizações e imagens.

A condição do pensamento é a de estar nas curvas mais sem amparo, distante do que já se sabe e impõe-se como instância regulamentar. Não é para ordenar que se necessita de ideias. O resto são intelectuais de Sessão da Tarde, erguendo-se aqui e ali para constranger proposições de problemas (“se nada presta, que fazer?”), como se o nebuloso das respostas desmentisse a evidência das perguntas.

Que fazer, então? Sempre, apenas, o que se pode; muitas vezes se avacalha. Como Tom Zé, Rogério Sganzerla ou os Sex Pistols, Flávio Reis ensina que quaisquer ingredientes servem à feitura de bombas, desde que haja sacação, argúcia, inteligência e – sobretudo – que o sujeito não arregue. É chegado o tempo do arsenal contra o repertório.

[Guerrilhas é editado conjuntamente pela Pitomba! livros e discos e o jornal Vias de Fato, tem lançamento marcado p/ 16/02, no Chiquinho, e é uma porrada, verdadeira lição de violência do pensamento.]

São Paulo fev. 2012

p/ Luiza De Carli & Marcio Honório de Godoy

Não tenho dúvida, até onde se pode não tê-la, de que o capitalismo também terá seu ocaso — não por crendices dos técnicos do progresso mas por não subestimar a potência do movimento. Não se planeja derrocar uma Roma, não se acorda uma manhã qualquer c/ a resolução de dar início à Renascença. Há contudo dias propícios à ação, eras em que a malha elétrica da violência habita densamente o ar e toda a fauna dos esgotos sobe à superfície. Assim desponta esta cabeça de século, em que o fundamental não é conter o avanço das energias mortais do conservadorismo, do fascismo e de tudo o que seja lógica de rebanho — delas, como de resto de nenhum poder, não é possível refrear uma forma, já sabemos que o poder não é uma forma — fundamental é que a cada golpe seu sobrevenha reação como de mil trovões a galope. Por aí se dá ao acaso a chance de aspergir no terreiro da História a faísca maldosa da revolta.