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O afeto é uma energia ilimitada

[Em que me atenho a nacos de memória e ordeno
o mínimo possível de uma temporada impossível]

 

 

Viro os olhos no voo da abelha. Por onde passo me demoro observo padrões de nuvens. Uma poeta inglesa diz que a faço lembrar dos loucos de rua c/ os meus crazy rhythms of portuguese. Uma artista de rua boliviana só conhece duas palavras em português, saudade e maconha.

Mal desembarco já me encontro entre pessoas na mesma onda, el mismo flow, interessadas na experiência possível ali naquela situação propícia. Conheci Narcís Rovira, o fotógrafo da Catalunya que viaja sem saber p/ onde vai, apenas vai, e diz gostar do meu trabalho porque percebe o mundo como frequência e contato; e Alejandra García Navia, que pinta faixas de pedestre na Bolívia, desenhos, jogos no lugar das faixas brancas, ela diz ter vontade de tirar os sapatos durante minha fala. Duas das pessoas mais livres que já conheci na vida, entre tantas, comigo desde o aeroporto de Londres até a estrada p/ Nottingham, me ensinam e comovem a viagem inteira.

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Não conhecia nenhum dos brasileiros que se apresentariam no WEYA, tampouco Ricardo Ribenboim e Gustavo Seraphim, que organizaram a delegação e cuja presença foi fundamental, grandes figuras. Todos se conectaram e nos tornamos amigos, de fato, c/ cumplicidade e interesse pelo trabalho uns dos outros, c/ vontade de conversar. Os dançarinos Eduardo Fukushima e Julia Rocha (também poeta), o rapper Flavio Renegado, o dramaturgo Pedro Vilela, o artista Fabricio Lopez, e a dupla de estudantes Mateus de Souza e Bruno Gomes, que apresentou um documentário sobre os refugiados haitianos vivendo na Amazônia, na situação que se sabe. São artistas que pesquisam, que se movimentam, bastante maduros e craques na gestão de seu próprio trabalho. Foi muito proveitoso trocar impressões sobre poesia c/ uma turma de olhos livres. Sem dúvida, algumas conversas irão se tornar colaborações, e amizades longevas.

P/ mim, o melhor do WEYA se deu nesse nível, inclusive os trabalhos de que mais gostei, como o do santista Fabrício Lopez. Numa tarde de bobeira e ideias na residência onde nos hospedaram ele sacou da mala incríveis xilogravuras xamânicas p/ um brisado círculo composto por uma escritora argentina, um músico libanês e um poeta nordestino. Ganhei de presente a gravura duma cobra, muito impressionante.

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Outra experiência decisiva foi a convivência c/ os artistas bolivianos, e alguns uruguaios. Me aproximar afetivamente, me envolver c/ o trabalho de adoráveis grafiteiros, fotógrafos, artistas plásticos, músicos, dançarinos, me reconhecer no modo de ser totalmente das ruas desses caras. É verdade que fui ao Reino Unido para me descobrir boliviano, e latinamericano. Os bolivianos são os nordestinos da Latinamérica, além do mais bebem à Pachamama, respeitam o chão onde pisam. Minha sensibilidade sintoniza c/ a deles porque aprendo poesia c/ o chão.

Por exemplo, Marco Antonio Quelca Huayta, o chef, sentia o mesmo incômodo que eu em relação aos seus pares. Os demais chefs cozinhavam p/ a degustação, mas ele queria falar de seu povo e história através dos sabores. Un capo, Marco produz uma cozinha ritual, e realiza delicadas esculturas em melancia. Tem uma consciência muito sofisticada do que faz, também é uma das figuras mais impressionantes que já conheci. Me encanta seu modo de falar, como o de Pablo Cartagena, el MeXist, um irmão que reconheci logo que nos conhecemos, alma exuberante, um ás do grafite e dono dum bar em Cochabamba que espero não tardar a conhecer.

Estou sempre ouvindo a conversa dos dois, buscando aprender a gíria louca. Uma vez, eu e Marco nos encontramos sem saída num fim de noite, regressamos juntos à residência, descobrindo afinidades. A mesma raiva, o mesmo encanto, o amor, um desprezo pelos pedidos de perdão e o brilho falso do mercado das artes. No dia seguinte, me ensinou a fumar como um índio boliviano, como Alejandra me levara a Pachamama, entre tantas iniciações.

Ela, como diversos artistas, teve problemas p/ expor seu trabalho. Pintar as ruas e grafitar são atividades ilegais no Reino Unido, como quase tudo. Era comum cruzar c/ artistas que não sabiam o que iriam fazer, alguns só teriam chance de mostrar seu trabalho nos estertores do evento, ou nem isso. Alguns encontraram sua forma de protestar, como a fotógrafa espanhola Cristina Ibañez-Tarter, que afixou em várias galerias uma pequena placa onde se lia invisible, o que me emocionou bastante.

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Me apresentei na Backlit Gallery, um espaço fora do centro de Nottingham, bastante propício. Um prédio cru, mal entrei e senti vontade de tirar os sapatos p/ sacar melhor. Foi um dos primeiros eventos do festival, no dia 7, fim da tarde. Tudo muito rápido, eu havia chegado na noite anterior e não dormira nada, entusiasmado como todos ligado até alta hora nos primeiros contatos. Só consegui entrar em foco na própria galeria, minutos antes de falar, o que contribuiu p/ que eu alcançasse um estado de fragilidade e entrega.

Fui recebido pelo poeta Robin Vaugham-Williams, coordenador do programa de literatura. Um sujeito gentil, c/ quem tive as melhores conversas sobre poesia. Tecnicamente, a apresentação ficou aquém do que desejei, ainda assim penso que funcionou. Apresentei um experimento, no qual muitos aceitaram entrar. Gregos brasileiros latinos egípcios espanhóis ingleses me presentearam c/ palavras gentis, e além do mais de grande compreensão. Muitos sacaram o ritual, curtiram a música das palavras, ou sugeriram caminhos, c/ generosidade.

Na verdade, CAIXAPREGO adquiriu nova dimensão depois desses dias. Se começou numa viagem fora do tempo a São Luís, agora me sinto fora do tempo e do espaço. Meu desejo é da idade da Terra.

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Comigo se apresentaram o uruguaio Camilo Baráibar, o português José Trigueiros e o italiano Francesco Cozzolino. Foi uma noite de investigações, cada um sugerindo modos de vocalizar e performar. Foi uma exceção aos eventos de literatura do WEYA, tanto pela existência de pesquisa quanto porque cada um deu seu jeito de fazer sentido em sua própria língua. O que vi nos demais eventos eram leituras de conteúdo, ingênuas ou desinformadas, no melhor estilo prosa preguiçosa, “hoje acordei e tomei café preto, e pensei um pouco e aqui ofereço, emocionado, uma lição”. Saturado disso compreendi a necessidade de Kenneth Goldsmith alhures, ou seja, longe de mim. Também quase sempre falavam em inglês, e não entendo um escritor que sai do Egito ou da Zâmbia p/ esconder sua língua e se desculpar pelo inglês ruim.

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A importância que dou a minha circunstância histórica e política, também nisso me reconheci entre os latinamericanos. Vi coisas excelentes, em performance, artes visuais e música, dos lugares mais surpreendentes, mas fascinadas demais pela “boa técnica”, a metalinguagem e outras modalidades de auto-referência. Em compensação, conheci Imad Hashisho, um autêntico malandro do Mediterrâneo que, c/ sua fala suave, me contou sobre seu mestre, um músico cego, telepata.

Oscar Figueroa, outro amigo boliviano, me conta sobre sua avó, que deixava o cigarro queimar inteiro, sem bater as cinzas, e nelas lia o futuro. Ele levou ao WEYA uma instalação em que se produz som em contato c/ uma escultura de bronze temperada por um software. Era um lance brilhante, instigado, mas muito pesado, e precisava ser levado de um lado a outro, era uma obra p/ a rua. Nessas horas me juntava à turma e ajudava a carregar capengamente alguma coisa e o artista Mikele Rollano, certa vez, como p/ afirmar que tudo daria certo, disse somos ocho manos. Somos una araña.

Sensações demais a ordenar. Viro os olhos no voo da abelha. Por onde passo me demoro observo padrões de nuvens.

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O falso problema de K. Goldsmith

Que a dicotomia “escrita criativa”//”escrita não-criativa” seja um falso problema dá-se a ver no fato de o questionamento da autoria nascer c/ a própria autoria; isto é, se a autoria é um fenômeno moderno tal como a conhecemos, o plágio criativo também o é, como atesta a energia que gigantes da modernidade como Lautréamont ou Walter Benjamin nele empregaram, o impulso de nutrição que o roubo representa em suas obras. O falso problema se instaura ainda mais confortavelmente na poltrona das veleidades quando se nota que, enormíssimos saqueadores, seus nomes permanecem inscritos na história da autoria, bem como é Kenneth Goldsmith quem gira o mundo concedendo entrevistas, colaborando em simpósios e oferecendo cursos. Seu rosto, ao contrário do de Lautréamont, já é bastante conhecido.

Me sinto óbvio escrevendo algo como isto, mas circundado pelo que se tem dito sobre o assunto, e evidentemente admirando, como admiro, a obra & presença de Kenneth Goldsmith entre os humanos, tenho a impressão de que o poeta torna em totem um dilema c/ o qual não deveríamos sequer nos comprometer. É como os teóricos franceses, nalgum ponto do século XX, digladiando-se c/ o problema do significante/significado quando bastaria contorná-lo, já havendo disponíveis formulações mais produtivas acerca da natureza da linguagem. No caso de Goldsmith, quando detecta em dada função exercida pela autoria a prepotência p/ a qual o ego serve muitas vezes de escudo, compreende que ela não encerra os limites da criação mas ignora que nada lhe encerra os limites, entrando nesse ramerrão de “o futuro da escrita é assim & assado”.

Não interessa o contrário do autor, ou o contrário da autoria; interessa é que a criação não seja uma instância de autoridade, e que aquilo que o autor propõe, que o proponha primeiro a si próprio. Me vêm à mão, à lembrança, uma bela fala de José Celso Martinez Corrêa acerca do carnaval enquanto entrega à dissolução coletiva na qual o ser atinge seu mais alto brilho, & a simples presença de um livro como Curare, de Ricardo Corona, gesto por meio do qual, através do poeta, uma língua & um povo se dão à luz. Não há nada de libertário nesta ou naquela técnica de escrita, a peleja mais interessante está, me parece, no esquecimento das funções coletivas da arte, sua notória irrelevância, cujo nome mais conhecido é “entretenimento”. Quanto ao sujeito, tudo está em exercê-lo como grande domesticador ou em excitá-lo como porta perceptiva, canal p/ tudo o que existe. Neste ponto, ter uma ideia ou apropriar-se de uma ideia são recursos, dois entre tantos — a criação sempre esteve em aberto, ao contrário de muitas cabeças.

Que a linguagem nos diga coisas das quais sequer suspeitamos, inclusive em se tratando de algo escrito por nós mesmos, é uma experiência que não escapa a ninguém que se pronuncie — é a raiz dos mal-entendidos, das ambiguidades, das polissemias. A isto uns não reagem bem, voltando-se às aberturas de sua obra c/ o clássico “não entenderam nada”, quando nem sempre é este o caso; a outros alegra que a obra escape de seus domínios e sirva a outros que dela se apropriem. O que importa não é eleger o “não-eu” contra o “eu”, mas que “eu” não se cristalize nunca, que se deixe modificar sempre que necessário, inclusive pelo produto de suas mãos — neste sentido, não é que um poema expresse algo, mas que o revele, inclusive ao poeta. Caso contrário é apenas um novo autoritarismo — veja-se o que diz Goldsmith nesta entrevista, “não é tanto o que nós escrevemos, mas sim aquilo que decidimos reformular o que faz um escritor melhor que outro”. De minha parte, desde que percebi que viveria pela poesia, jamais me ocorreu que se tratasse de uma competição.

Carta ao Papa

“O Confessionário não é você, oh Papa, somos nós; entenda-nos e que os católicos nos entendam.// Em nome da Pátria, em nome da Família, você promove a venda das almas, a livre trituração dos corpos.// Temos, entre nós e nossas almas, suficientes caminhos para percorrer, suficientes distâncias para que neles se interponham os seus sacerdotes e esse amontoado de doutrinas afoitas das quais se nutrem todos os castrados do liberalismo mundial.// Teu Deus católico e cristão que, como todos os demais deuses, concebeu todo o mal: 1°. Você o enfiou no bolso.// 2°. Nada temos a fazer com teus cânones, índex, pecado, confessionário, padralhada, nós pensamos em outra guerra, guerra contra você, Papa, cachorro.// Aqui o espírito se confessa para o espírito.// De ponta a ponta do teu carnaval romano, o que triunfa é o ódio sobre as verdades imediatas da alma, sobre essas chamas que chegam a consumir o espírito. Não existem deus, Bíblia, Evangelho; não existem palavras que possam deter o espírito.// Nós não estamos no mundo; ó Papa confinado no mundo; nem a terra nem Deus falam de você.// O mundo é o abismo da alma, Papa caquético, Papa alheio à alma; deixe-nos nadar em nossos corpos, deixe nossas almas, não precisamos do teu facão de claridades”.

[Lembrei do belíssimo míssil anticlerical escrito por Antonin Artaud (tradução de Claudio Willer) por ocasião dos inacreditáveis textos de José Lorêdo de Souza Filho & Ronald Robson acerca da última edição da revista Pitomba!. O primeiro faz um apanhado didático das tecnologias de tortura aperfeiçoadas pela Igreja Católica p/ sugerir o que ocorreria c/ os editores da desprezível (superficial, gratuita & desrespeitosa) publicação em tempos mais sérios do que este em que vivemos. Uma verdadeira pérola do espírito penitente, coroada c/ a sugestão de que nosso vil panfleto seja levado a ninguém menos que o Arcebispo Metropolitano de São Luis, “para que S. Exa. tome conhecimento [de sua] natureza odiosa”. O segundo, bem, este nos admoesta a “orar c/ o coração na mão” & a que nos penitenciemos ante a História da Arte. Também esmiúça as razões de nossa inconsistência, incoerência & irrelevância, ao que eu faria apenas uma correção, a de não termos nada a ver c/ modernismos mas talvez c/ o punk, coisa ainda mais grosseira. Aqui & ali têm pintado comentários, réplicas &tcéteras, de minha parte julgo alentador que alguém tenha se ofendido c/ uma revista dedicada a proporcionar o máximo de diversão possível através do maior número possível de provocações — & isso basta. Tudo, enfim, tem rendido fartas risadas, às quais se seguirão outros números ainda piores, aos trancos & barrancos]

Leminski, leveza, ligeireza

Aqueles que apreciam, como aprecio, a obra & figura do poeta Paulo Leminski, costumam atribuir-lhe a velocidade como um traço forte, a rapidez de pensamento, destreza de insights etc. Ainda é necessário, me parece, defrontar-se c/ a ligeireza que não raro lhe acompanha a ideia rápida, a fragilidade de parte expressiva de suas proposições, sobretudo porque muitas vezes distraída na postura incisiva, afirmativa, de sua eloquência graciosa.

Passei a me deter no assunto por conta dum tema em comum, paixão que compartilhamos, as vicissitudes da obra de arte enquanto mercadoria. Leminski dedicou alguns ensaios à questão, que discuto (o tema & os ensaios) em texto a ser publicado ainda este semestre. C/ o relançamento de seus trabalhos críticos num único volume (LEMINSKI, Paulo. Ensaios e Anseios Crípticos. Campinas: Unicamp, 2011), folheando-o outro dia, quis voltar a isto, motivado pela profusão de imprecisões disseminadas por suas páginas, desde citações erradas até falseamentos históricos (pensando o tema da mercadoria em “Estado, Mercado. Quem manda na arte?”, o poeta situa a entrada da arte no mercado no período posterior à 2ª Guerra Mundial, numa tentativa forçada de livrar a cara das vanguardas, ignorando, no mínimo, que até a década de 1930 o tema já havia sido fartamente pensado por W. Benjamin), alhos misturados a bugalhos (a equivalência, p. ex., entre poesia experimental & poesia metalinguística, no ensaio “Arte-reflexo”) & formulações interpretativas que pesam a mão, indiciando dois aspectos dos mais problemáticos de seu pensamento, a prevalência da tese sobre os eventos & o recurso determinista à História.

Há uma tirada fabulosa numa de suas entrevistas, em que ele afirma gostar sempre de se colocar numa perspectiva histórica, característica que parece ter motivado não apenas diversos de seus temas, como também a disposição ininterrupta de vasculhar problemas pertinentes ao seu próprio tempo, algo que admiro intransitivamente. No corpo a corpo c/ os raciocínios, porém, “perspectiva histórica” resulta numa série de relações de causa & efeito bastante grosseiras, algo em que Leminski se assemelha aos marxistas de cartilha que não perdia a chance de ironizar.

Neste sentido, o ensaio “Alegria da Senzala, Tristeza das Missões” é uma aula sobre o modo como forja argumentos desdobrosos p/ corroborar teses que lhe ajudem a ordenar o mundo, ainda que à revelia deste. Escrito sob o impacto de uma visita a Salvador, o texto empreende uma leitura do Brasil fracionando-o em Norte (“do Rio de Janeiro p/ cima”) & Sul, dois currais cuja diferença marcante seria a festividade & alegria do primeiro contra a frieza & moral trabalhista do segundo. A oposição seria compreensível à luz de nosso período colonial — o “Norte”, receptor do negro escravizado, deveria sua festividade ao fato de que “o africano conseguiu preservar suas formas culturais, em corpo e alma, da lavagem cerebral exercida por missionários e pregadores. Nisso, o negro deu um banho de plasticidade, demonstrando uma esperteza que os índios nunca tiveram ou não conseguiram ter”. Os africanos “eram, muitas vezes, superiores em cultura aos Joaquins e Manuéis analfabetos que os adquiriam”, daí terem conseguido preservar ritos, mitos, danças & hábitos que os haveriam de manter, e às suas almas, intactos — ao contrário dos índios, dizimados culturalmente pelo colonizador. Tanto que “duas coisas chamavam a atenção dos raros visitantes às Missões jesuítas do Sul do país e do continente: a ordem e a tristeza. (…) Atingidos mortalmente no coração da sua cultura, os índios reduzidos do Sul vegetavam, c/ um grande vazio dentro e uma alma postiça”.

No correr da História, ainda chegariam à região os imigrantes, que, c/ os índios, forneceriam a explicação completa da “tristeza” que acometeria a banda de baixo do país. Italianos, alemães, poloneses, sírio-libaneses, japoneses, ucranianos, holandeses — “repetiu-se, com os imigrantes, o fenômeno da erosão cultural do índio”, pois o imigrante “em duas gerações perde a língua de origem, tradições e formas culturais próprias. Mas ainda não adquiriu plenamente as formas brasileiras de cultura”. P/ isso, o exemplo dado por Leminski é constrangedor — “apesar de um gaúcho, Lupicínio Rodrigues, não há samba no Sul. E nosso carnaval é um velório, cotejado c/ outros carnavais mais ao norte”. Uma tolice em si própria a ideia de que ao habitar entre culturas o imigrante torna-se um aculturado, ao invés de jogar & forjar uma cultura entre culturas, em movimento como tudo o mais na vida — tolice coroada pela redução do espectro cultural brasileiro a manifestações (samba, carnaval) que sequer são homogeneamente fortes naquilo que o poeta considera “Norte” do país (no Maranhão, fevereiro só em junho). Mas o cúmulo está em que, p/ confirmar a tese desse Norte alegre contra o Sul cinzento, o poeta afirme: “o negro também morria de ‘banzo’, modalidade mórbida de saudade da África, misturada c/ desgosto pela condição escrava, c/ que se perdia o prazer de tudo e deixava-se morrer à míngua. MAS ERAM CASOS” (grifo meu). A própria palavra banzo, embora de origem incerta, existe como designação do blues do exílio transatlântico, mas “eram casos”? O poeta, p/ falar da real plasticidade cultural africana (pois é real a plasticidade cultural do humano), ignora o que a produção historiográfica das décadas de 1960/70 já havia contestado como “mito da escravidão branda”, apontando não apenas a dimensão brutal do cativeiro, como também os altos índices de suicídio entre os escravos (lembrando, c/ Antonio Risério, que “os iorubás vieram parar aqui por conta de suas guerras c/ o Daomé. E que muitos africanos atuaram no tráfico de escravos”).

Observe-se ainda que, descontada a estranha lógica que considera a superioridade cultural do negro em relação ao “branco analfabeto” (como se cultura fosse um pingente p/ letrados, ou como se fizesse algum sentido opor o “analfabetismo branco” à riqueza cultural africana, fortemente assentada na oralidade), Leminski é capaz de, em defesa de seu argumento, ignorar inteira a região Norte (Norte mesmo) do país, em que a presença indígena jamais se dissipou & em que não houve, até onde alcanço, assentamento de populações africanas (também ignora, voltando a Risério, “a cruel política expansionista dos tupis, que expulsaram tribos indígenas do litoral p/ o interior, matando deus-e-o-mundo. [E que] os tupinambás eram escravistas”). Mesmo no Nordeste (que o poeta imagina ser uma grande Bahia, cooperando p/ um dos mais comuns estereótipos que se promovem “do Rio de Janeiro p/ baixo”) a presença do negro não é homogênea, fazendo-se incipiente em estados como a Paraíba & convivendo, no “Nordeste profundo”, com substratos culturais mais diversos que o samba & os cultos afro-brasileiros — convivem inclusive doses violentas de racismo & machismo c/ a liberdade física & sexual idealizada pelo poeta. E se menciono a Paraíba, é porque vem de lá uma das mais óbvias contradições à imagem alegre em que Leminski investe (ou inventa), o poeta Augusto dos Anjos, “e quando esse homem se transforma em verme/ é essa mágoa que o acompanha ainda!”…como a própria existência de Leminski põe abaixo a ideia deste Sul cinzento.

Tudo talvez decorra de sua ânsia de sentido (“me recuso a viver num mundo sem sentido”, diz à entrada do livro, aliás num belo texto), que na sanha das explicações atropela aquilo que lhe contradiz, intérprete guloso, apaixonado pelas próprias sacadas, mesmo as mais descuidadas.

[Em tempo: as citações de Antonio Risério foram colhidas na entrevista “A transa cultural da periferia baiana”, presente no volume da série Encontros (Azougue, 2009) dedicado ao poeta & antropólogo.]

Variação c/ tema ao fundo

e estranho a lembrança que me assalta a cada vez que penso em j. cage, sua risada e o tom de sua voz me tomam e antecipam a ideia, imagem pessoal intransferível mas eu a dedico logo a ele em quem encontro um professor do abandonar-se? em volta a cidade em obras, orquestra de ferro e asfalto e vidro ponteando timbres que desconheço até que os ouça e me abandone a ouvi-los, e me incorpore à liberdade de que são feitos. entrega antecede o entendimento, sabor se adianta ao sentido. criar liberto do imperativo da autoexpressão, abertura dos canais perceptivos à integralidade, imprevisibilidade e extraordinária riqueza de toda experiência sensível. criar para alterar-se, e improviso definir que o criador não passa assim de alguém liberto de si mesmo. linguagem liberta de mensagem, também os signos se abandonam a si próprios, organismos vivos, inteligência do acaso. o acaso é a inteligência anônima, o acaso é a intuição anônima. e não estranho a lembrança que me assalta a cada vez que penso, pois em j. cage, sair absoluto de si não é abolir-se, mas rebelar-se sem descanso. desencadear na linguagem o desconhecido é seu modo de lidar com o risco, livrar-se dos próprios critérios, nada sujeitar ao crivo do ego. selflessness not self-expression. purposeful purposelessness. atenção ao que não lhe pertence, mas não para pertencê-lo. i-ching, modo de usar: a discipline to free my work from my memory and from my likes and dislikes. tudo lhe interessa, nada lhe entedia, daí que tenha as manhas de sair de si sem sentir a menor falta e que, indagado sobre o que aprendera com as execuções de 4’33”, tenha dito que a questão nunca fora aprender, mas transformar-se. anarquista coerente, não lhe importa o acúmulo mesmo de saber, que pretere em favor da mutação ininterrupta de si em algo ainda não vivido. sons que seguem ocorrendo quer você os produza ou não, quer você insista em negar que haja risco ou não. o que cage concebe por silêncio, não a ausência de sons mas de intenções (what is the purpose of that/ experimental music?/ no purposes — sounds), experimente: ouvi-lo é dispor-se à vaziez. amo seu gosto pelo ruído e pela ausência de lei do ruído. há quem ache pouco, aquém da arte, mas não é justo nesse território instável, onde esquecermo-nos é esquecer a arte, que nós nos confundiremos com ela? why do they call me a composer/ if all i do is ask questions? o que j. cage alcança por meio de sua criação qualquer um poderia alcançar. isto não significa que qualquer um poderia criar aquilo que criou, mas que ninguém precisa dele para criar. seriously/ if this is what music is/ i could write it/ as well as you. à semelhança de seu riso fácil não há traço em cage da empáfia que este mesmo alvo de realizar em vida a arte imprimiu em tantos gestos que igualmente amo, destemperados solares explosivos, que contudo miram a libertação (dos homens, da sociedade, das consciências) de alguém ou algo além daquele que os empunha. a mim ele parece rir como se pela 1ª vez, sempre, somente em j. cortázar encontro tal determinação infantil e alegria desmedida, afirmação da vida como via para transformá-la, total entrega ao começo das coisas, inclusive ao começo de si, esse estar no mundo a cada vez inaugurado. daí sua opção pela performance, que ao contrário dos discos considera necessariamente diversa a cada vez. e pondero e discordo, e penso que também um disco é outro a cada vez pois já é outro quem o escuta, e pondero e entendo que também aí onde discordo esteja a abertura integral de cage ao que desconhece. pois se cada leitura se inaugura é por se ter modificado o leitor, enquanto o imprevisto na performance não está na mutação que já se deu em quem performa mas em todo o resto e em tudo onde haja fôlego.

Carta a um amigo severo

você joga com o fácil, celebra o clássico, ironiza a transgressão, tomando-a por maus modos. faz vista grossa ao que você e “algum iconoclasta juvenil” possam ter em comum: operam pelo reiterado, transformam a querela em questão de valor. é isto sua busca por timbres confiáveis, vozes familiares. elas lhe dirão o que deseja ouvir, de minha parte importa mais que não saibam no que dará seu dizer. questão de gosto, desvio do assunto, volto ao assunto. em todo caso você é desonesto, e até covarde: ao clássico você opõe imitadores de B, filhos de C, leitores de A. nada opõe, portanto, pois a criadores dalgum tipo só seria possível contrastar outros criadores, não frequentadores de paróquia, escritores cover. sua confiança nO cânone e na boa escrita, eu a reconheço de longe. âncora do conservadorismo de meus amigos, leitura que usurpa e varre p/ debaixo do tapete a potência das cisões. a você eu desejo mais que isto, punhalada no peito ou inflamação nos ouvidos, para que você saiba o que pode um grito contra o sussuro na “noite da sua alma”. também eu compartilho o mal estar diante do ególatra, e gosto da imagem que você cria, hoste de molloys & malones, pra falar de fragilidade. mas o que lhe faz correr de volta para a barra da saia dos clássicos em mim desencadeia a desconfiança de que as espirais dos solilóquios não dizem só do autismo de seus autores, dizem da pobreza de uma arte reduzida à dimensão expressiva. para mim algo de base, recusar o avental da autoexpressão e franquear os limites da expressividade, curioso pelo que se pode experimentar com as mutações do que se pode dizer. investigar o que pode a arte verbal, para você e meus amigos conservadores implica saber o quão alto ela vai, mas para mim, o quão longe ainda pode ir. indagar o que pode a linguagem segue sendo para mim motor da pesquisa estética, e quero crer que então já estaremos distantes de uma questão de valor ou gosto, embora seja sim questão de temperamento. pesquisa e projeto não interessam ao seu lance de clássicos, e acho curioso que noutra ocasião você cite john cage, cuja lição (i make music not to express, but to change myself) não é outra senão curtocircuitos e viagens ao desconhecido. persegui, ainda persigo o contrário de uma boa escrita, que para mim é uma função de advogados, importando à arte verbal que lide com o que escapa, o que está fora. sem complexos, de édipo ou épico, apenas este abandonar-se, abjurar constante. o que abraham moles chama pensamento bruto, e lawrence ferlinghetti (ideas before they are destilled into thought) chama poesia. no fundo você o sabe, e o demonstra ao esbanjar ironia contra subtransgressores, pois imitadores de qualquer estirpe jogam no que já se sabe. ou estou errado e você se opõe a que se imite uma faixa criativa que não lhe interessa, acreditando desejável que se imitem clássicos, que afinal foram feitos para isso. talvez por isso você resmungue, bem a contragosto, que roberto bolaño seja a exceção que de fato é. não lhe passa pela cabeça que todo criador que importa é uma exceção por princípio e posse, dimensão de excesso contra a regra-redundância. você se senta na poltrona do estável e recebe o espólio de uma tradição, e deve ser boa a paz que sente na companhia dos mortos enquanto aprende com eles a viver, e você dorme e dorme sem sonhar outra existência.

Improviso e proposição de contexto a perguntas incontornáveis

política é conteúdo ou política é forma? protestos de artistas contra chefes de estado e ofensa alguma à bienal de são paulo, forma privilegiada do capital no curral das artes? ousar falar do irã sem posicionar-se ante o espaço de poder que nos paga as contas? por que os principais embates políticos desencadeados pela bienal dizem respeito a tudo, menos à impostura de se propor conteúdo político sem a disposição de arranhar por mínimo que seja o espaço ordeiro que o veicula? que diz a obra quando exposta na vitrine da tendência? contexto é conteúdo ou forma? a forma do contexto altera a forma da obra? se não problematiza o próprio agente do discurso, arte e política é algo além de mero papinho de curador? quando é que o artista gil vicente apontará sua arma para a plaqueta que lhe explica as obras? repúdio ao papa, mas não aos seguranças que me revistaram à entrada do pavilhão? seria a truculência dos seguranças de institutos culturais um ícone, índice ou símbolo dos conflitos sociais alimentados pelo mercado das artes? haverá curadoria para a subversão? seguranças mantenedores da ordem? seriam os textos didáticos da curadoria exemplos do que décio pignatari chama de expansionismo logocêntrico, a pôr demais linguagens sob a asa e dependência da palavra? isto a luta de classes de signos? melhor a arte não servir para nada ou não servir a ninguém? consciência social é uma forma de consciência de linguagem? e o contrário, muito pelo contrário? consciência social do artista é consciência dos fluxos e contra quais fluxos corre sua fala, ou preparação de releases? existe forma revolucionária sem implicações revolucionárias? a forma revoluciona sincronica ou diacronicamente? em qual contexto palavras terão consequências mais decisivas que significados? um poema se faz com palavras ou mais que palavras? é pela beleza que alguém dá a vida ou é pela vida? devo me alegrar com a progressiva ocupação do conjunto nacional pela livraria cultura ou devo desconfiar? o que será que diz godard quando afirma que a derrocada do cinema europeu ocorreu não com sua falência econômica, mas com a posterior injeção de grana hollywoodiana em suas produções? melhor o cinema morrer pelas mãos de godard ou do departamento financeiro? godard no cinemark representa perigo a alguém? se a diferença entre o cinemark e o espaço unibanco de cinema está na qualidade da programação, onde a semelhança? qual a diferença entre uma instituição cultural e uma instituição? o destino da grana justifica a origem? por que escritores desconfiam de críticos mas não de seus editores? desafios ao poder com financiamento do poder representam risco para o poder ou para quem o desafia? política é conteúdo ou política é forma?