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cosmonauta do espaço interior

minha estante_ga

Ando lendo com muito prazer e proveito O Retorno à Cultura Arcaica (The Archaic Revival), coletânea de textos e entrevistas do botânico, ecologista e “explorador” Terence McKenna (1946-2000). Cheio de lucidez, beleza teórica, imaginação descritiva e generosas informações técnicas, McKenna fala do papel central que têm as plantas psicodélicas na história (e no futuro) da espécie humana. A partir da experiência com substâncias de uso religioso milenar – a psilocibina, o DMT (encontrados em cogumelos) e a ayahuasca – o autor expõe uma bem fundamentada hipótese acerca do impacto que os alucinógenos tiveram no formação biológica dos seres humanos: a produção de êxtase visionário estaria diretamente ligada ao aparecimento da consciência e da linguagem entre primatas. Hoje, esses vegetais singulares teriam muito a contribuir na reinvenção de formas de vida e padrões sociais, graças ao autoexame a que submetem o sujeito, quando dissolvem balizas ideológicas, tabus e réguas culturais. Nada mais distante do estereótipo das drogas e do vício: para Terence McKenna, uma definição razoável de droga “nos faria legalizar a psilocibina e proibir a televisão”.

[txt p/ a coluna Minha Estante, do jornal Gazeta de Alagoas, publicado em 9 de fevereiro]

o hacker da linguagem

Tazio é um artista raro. Ele consegue equilibrar uma grande capacidade técnica e uma destreza conceitual fora do comum, o que faz com que entenda e realize sua escrita não em termos de “algo a dizer”, mas de jogos a disparar: sua especialidade são modos de fazer.

Poeta-programador, hacker de processos, ele tem uma obra bastante inclusiva, na qual o leitor vira usuário capaz de operar a linguagem como programa. É ponta de lança, uma arte livre como um software livre.

Uma das principais alegrias que tive nos últimos anos foi conhecer Tazio Zambi, com sua inteligência vibrante e ânimo bélico, e ter contato com as flores exuberantes, coloridas e radicais que ele cria, pura invenção de táticas sensoriais. Com ele aprendo que a arte não reside na forma, mas no efeito.

Dizem que Cerco é o seu segundo livro. Mas se ligue, existe uma chamativa prateleira de diversões eletrônicas que faz tempo ele vem construindo. Uma série de projetos disponíveis online, inclusive o próprio Cerco em formato web-instalação. Assim ele é, veloz e múltiplo.

[depoimento sobre TZ, o fabbro maquinado, que escrevi p/ o jornal Gazeta de Alagoas, publicado no dia 26 de janeiro do Ano do Cavalo]